QUARTETO EM CY
SOM DEFINITIVO
1966
Houve uma época em que grupos vocais
se revesavam entre as preferências do publico brasileiro, desde
os anos trinta com o pioneirismo do Bando da Lua liderados por
Aloysio de Oliveira que foi fundamental para o sucesso de Carmen
Miranda nos Estados Unidos, ate o surgimento de novos conjuntos
durante os anos quarenta, cinqüenta, e sessenta. Entre eles
se destacaram, Os Anjos do Inferno, Quatro Azes e 1 Coringa,
Namorados da Lua, onde João Gilberto iniciou sua carreira, Os
Cariocas, Titulares do Ritmo dentre outros. A maioria era formada
por homens, pois não tínhamos tradição em grupos vocais femininos,
isto é, até o aparecimento em cena de quatro irmãs baianas que
com seu talento caíram nas graças do poeta Vinicius de Moraes
e alçaram vôo rumo ao estrelato com trabalhos magníficos.
A história do grupo formado por Cyva,
Cybele, Cynara e Cylene inicia-se na cidade de Ibirataia sul
da Bahia de onde saíram para Salvador em busca de uma oportunidade
gravando no inicio dos anos sessenta seu primeiro disco no Studio
JS com a música Bem devagar, de Gilberto Gil, essa, aliás, também
a primeira musica gravada do jovem compositor baiano. O disco
não foi um sucesso comercial, mas despertou o interesse de alguns
empresários que as ajudaram a seguir em frente, e nesse caso,
era necessário ir ao Rio de Janeiro, capital cultural do país.
Assim foi feito e elas desembarcaram na ex-capital gravando
em maio de 1963 de Catulo de Paula a trilha sonora do filme
Sol sobre a lama, de Alex Viany. Nessa ocasião conheceram Vinicius
de Moraes que as batizou de Quarteto em Cy. O poeta tomado de
paixão pelas baianinhas fez então a elas o convite para participarem
juntamente com ele, Dorival Caymmi e o Conjunto de Oscar Castro
Neves de um show na Boite Zum Zum, que se tornou antológico
sendo posteriormente lançado em disco com seus melhores momentos.
No ano de 1964 já entravam no estúdio
da gravadora Forma de Roberto Quartin para gravarem seu primeiro
LP destacando-se nas interpretações de Reza, de Edu Lobo e Ruy
Guerra e Berimbau, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Vivíamos
naquela ocasião uma tumultuada crise política que resultaria
na deposição do presidente João Goulart e a tomada de poder
pelos militares, porém, vivenciávamos também um período de transformações
profundas na área cultural e uma renovação na musica popular
brasileira que iria projetar definitivamente uma geração de
jovens compositores e interpretes que seriam protagonistas das
cenas mais importantes do período e fundamentais para a consolidação
da musica popular como instrumento de contestação ideológica
e divulgação de nossos problemas sociais.
O mundo também passava por grandes
mudanças, em 1965 iniciava-se a guerra do Vietnã, os Beatles
gritavam Help e produziam os maiores sucessos musicais do planeta,
liderando um processo de transformação social que tinha nos
jovens seu atores principais. Nesse clima, portanto, nos dias
24, 25 e 26 de outubro, o Quarteto em Cy acompanhado pelo conjunto
Tamba Trio formado Luiz Eça no piano, Bebeto no baixo e na flauta
e Ohana na bateria entra novamente nos estúdios da gravadora
Forma e grava seu segundo LP, batizado com o sugestivo título
de Som definitivo e lançado no mercado em janeiro de 1966. Realmente
o nome do disco veio bem a calhar, pois confirmaria de maneira
inexorável o talento do grupo e consolidaria sua carreira não
so no Brasil como também no exterior.
O repertório é formado pelo que de
melhor se produzia na época, Aleluia, de Edu Lobo e Ruy Guerra;
Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes vencedora do Festival
de Musica Popular produzido pela TV Excelsior de São Paulo;
...Das rosas, de Dorival Caymmi; Água de beber, de Tom Jobim
e Vinicius; Apelo, de Baden e Vinicius; Zambi, de Edu Lobo e
Vinicius; Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil; Se você pensar,
de Francis Hime e João Vitório; O mar é meu chão, de Dori Caymmi
e Nelson Mota e Imagem, de Luiz Eça e Aloysio de Oliveira.
Este disco do Quarteto em Cy demonstra
mais uma vez o vigor criativo que passava a musica popular brasileira
nos anos sessenta dando a elas a primazia histórica da ruptura
de uma tradição num campo de atuação artística monopolizado
essencialmente por intérpretes masculinos.
São no dizer de Vinicius de Moraes
que assina a contra capa do LP “o que há de mais puro em matéria
de conjunto vocal feminino: pelo menos, no mundo que eu conheço”.
Sábias e proféticas palavras do poetinha, pois o tempo iria
demonstrar que ele estava coberto de razão, já que a obra do
Quarteto em Cy é uma das mais belas páginas de nosso cancioneiro.
E hoje passados quarenta anos do lançamento desse disco que
lhes deu a notoriedade merecidamente conquistada podemos afirmar
com certeza que nossas vidas seriam menos alegres sem a graça
dessas baianinhas que ajudaram a embalar nossos sonhos de liberdade,
paz e amor.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna 26 de julho de 2005.
MÚSICAS:
1) Aleluia (Edu Lobo/Ruy Guerra)
2) Arrastão (Edu Lobo/Vinicius de Moraes)
3) ...Das rosas (Dorival Caymmi)
4) Se você pensar (Francis Hime/João Vitório)
5) Vim da Bahia (Gilberto Gil)
6) Zambi (Edu Lobo/Vinicius de Moraes)
7) O mar é meu chão (Dori Caymmi/Nelson Mota)
8) Água de beber (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
9) Imagem (Luiz Eça/Aloysio de Oliveira)
10) Apelo (Baden Powell/Vinicius de Moraes)
Ficha
Técnica
Produção e direção artística: Roberto Quartin e Wadi
Gebara
Foto da capa: Paulo Lorgus
Fotos da contracapa: Image
Técnico de gravação: Umberto Contardi
Supervisão gráfica: Marcos de Vasconcelos
Texto da contracapa: Vinicius de Moraes
Vocais: Quarteto em Cy e Tamba Trio
Piano: Luiz Eça Baixo e flauta: Bebeto
Bateria: Ohana |
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