A memória de um país se esvai todas
as vezes que se escondem ou deixam cair no esquecimento personagens
que foram fundamentais para a sua evolução, contribuindo de
modo exemplar para a formação de sua identidade e também do
seu desenvolvimento. Essas figuras que muitas vezes não ocupam
as primeiras posições no rol dos heróis da nação acabam sendo
relegados a um plano secundário e sua importância é relativizada
já que seus feitos apesar de importantes, mas distantes no tempo,
acabam sendo esquecidos e só relembrados quando algum estudioso
mais perspicaz lhes redescobre e devolve-lhe a sua real significação.
Quando isso ocorre tem sempre aqueles que se espantam com a
relevância do feito realizado e invariavelmente passam a atribuir
um valor mais significativo ao personagem não raro ampliando
a sua dimensão como também providenciando para que seja feita
a reparação histórica a seu respeito.
É claro que na escala de valores atribuídos
por pesquisadores, e ou, intérpretes da história, o que vale
é a relevância atemporal do realizador, ou seja, a sua importância
na maioria dos casos mede-se pela notoriedade conquistada e
os feitos que o fizeram ser uma unanimidade perene e jamais
igualada. Ora, mas, e se o personagem for um pioneiro em suas
atividades juntamente com um grupo que pensa e age como ele,
será ele destacado no meio de tantos ou lhes será reservado
um lugar secundário cuja importância será coletiva e não individual?
Essas reflexões nos vêm à mente quando
pretendemos trazer de volta o compositor Ernesto dos Santos,
o Donga, uma figura singular da história da musica popular brasileira,
cuja biografia esta ligada às raízes do samba juntamente com
outros notáveis de seu tempo responsáveis pela consolidação
da musica popular enquanto gênero musical urbano.
Nascido no Rio de Janeiro em 5 de abril
de 1890 participou ativamente das reuniões dos grupos de negros
que se encontravam no bairro da Cidade Nova freqüentando candomblés,
e participando de memoráveis festas onde se cantava e dançava
o samba. Muito cedo aprendeu a tocar cavaquinho e aos 14 anos
trocou o instrumento pelo violão, era um freqüentador assíduo
das reuniões da casa da Tia Ciata, baiana de grande prestigio
no inicio do século vinte entre a comunidade negra carioca que
promovia reuniões regadas a muito samba executado nos fundos
de sua casa já que era proibido pela polícia.
Desses encontros musicais surgiu o
primeiro samba de grande repercussão popular, sucesso absoluto
do carnaval de 1917 e que foi fundamental para a popularização
e aceitação do gênero por alguns segmentos das camadas medias
urbanas, trata-se de Pelo telefone de Donga e Mauro de Almeida,
gravado pelo cantor Baiano para a Casa Edison do Rio de Janeiro,
concessionária da gravadora Odeon Record no Brasil.
Se o feito de Donga para a musica brasileira
se resumisse apenas na sua participação como co-autor neste
samba, seu feito já seria suficiente para colocá-lo entre os
pioneiros do gênero e conseqüentemente um realizador fundamental
para a compreensão da história de nosso cancioneiro. Ocorre
que mesmo com sua intensa trajetória artística participando
como integrante do grupo Oito Batutas liderados por Pixinguinha
sendo este o primeiro conjunto a levar a musica brasileira para
exterior excursionando pela Europa em 1922, depois responsável
em 1928 pela criação também com Pixinguinha de uma orquestra
de salão denominada Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, nos
anos quarenta ter figurado entre os artistas convocados por
Heitor Villa Lobos para se apresentar ao maestro Leopold Stokowski
participando da gravação de uma serie de discos documentais
de musica brasileira lançados nos Estados Unidos pela Columbia
e na década de cinqüenta ter integrado o grupo da Velha Guarda
idealizado pelo radialista Almirante, ou seja, apesar de toda
a notoriedade conquistada, por muitos anos seu lado de compositor
ficou ofuscado pelo êxito do Pelo telefone e suas composições
com raras exceções não tiveram o destaque que mereciam.
Portanto, somente no ano de 1974 que
Donga teve a oportunidade de gravar um disco, o único de sua
vida, quando já contava com a idade de 83 anos. A iniciativa
partiu da gravadora Marcus Pereira que na ocasião realizava
um fabuloso trabalho documental de musica popular procurando
preencher lacunas existentes em nossa discografia/musicografia..
O LP composto de 11 musicas entre elas o Pelo telefone e um
trecho do seu depoimento dado ao Museu da Imagem do Rio de Janeiro
em 2 de abril de 1969, contou entre outros com um time de músicos
de primeira qualidade como, Altamiro Carrilho na flauta, Meira
no violão, Joel Nascimento no bandolim, Canhoto no cavaquinho,
Abel Ferreira na clarineta e no saxofone, alem dos interpretes
Paulo Tapajós, Gisa Nogueira, Leci Brandão, Almirante e Elizete
Cardoso.
No repertório podemos observar o talento
e a sensibilidade de um grande e versátil compositor revelado
nos choros Amigo do povo, Benedito no choro, Cinco de julho,
Vertigem e Ligia, teus olhos dizem tudo, esses com andamento
de choro canção, nos partidos alto Patrão prenda seu gado, em
parceria com Pixinguinha e João da Baiana e Seu Mané Luiz, nas
canções, Ranchinho desfeito, com De Castro e Souza e Canção
das Infelizes, com Luiz Peixoto e na marcha rancho, Quando uma
estrela sorri, com os ilustres parceiros Heitor Villa Lobos
e David Nasser.
Este LP, portanto teve o privilegio
de reafirmar e revelar para um grande publico o valor de um
artista profundamente ligado as raízes mais autenticas e profundas
de seu povo, um compositor refinado e de excelente produção
cujo nome deve figurar no panteão de nossos heróis populares
no campo da criação artística. Trata-se também de um documento
histórico fundamental para a preservação da memória da musica
popular brasileira. Infelizmente Donga não teve o privilegio
de ver o disco concluído, pois, faleceu em 25 de agosto de 1974
durante a fase final de montagem.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 3 de agosto de 2005.
MÚSICAS:
1) Amigo do povo (Donga)
2) Canção das infelizes (Donga e Luiz Peixoto) – Elizete Cardoso
3) Benedito no choro (Donga)
4) Patrão prenda seu gado (Pixinguinha, Donga e João da Baiana)
– Almirante
5) Vertigem (Donga)
6) Seu Mane Luiz (Donga e Baiano) – Leci Brandão e Marçal
7) Cinco de julho (Donga)
8) Ranchinho desfeito (Donga e De Castro e Souza) – Paulo Tapajós
9) Ligia, teus olhos dizem tudo (Donga)
10) Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida) – Almirante
11) Quando uma estrela sorri (Donga, Villa Lobos e David Nasser)
– Gisa Nogueira
12) Trecho de depoimento de Donga ao Museu da Imagem e do Som
do Rio de Janeiro.
Ficha
Técnica
Direção artística: Aluízio Falcão
Produção e direção de estúdio: J. C. Botezelli (Pelão)
Consultores: Ligia Santos e Mozart de Araújo
Técnico de som: Dilso
Assistentes: Pierre e Aramis
Layout: Antonio Maioral
Arte: Ernesto Cerri
Arranjos e regências: Horondino Silva Arranjo de Altamiro
Carrilho em Canção das infelizes Gravado nos Etúdios
da Hora Internacional