A história da formação do povo brasileiro
tem origem no processo de miscigenação ocorrido durante a colonização
portuguesa que nos primeiros anos de sua permanência em nossas
terras ao relacionar-se com as índias nativas proporcionou o
surgimento da nossa civilização, depois vieram os negros trazidos
da África para a triste missão de serem escravizados, tivemos
também contato com holandeses e franceses e assim muitos outros
povos vieram mais tarde abrigar-se em nosso solo constituindo
famílias cujos descendentes apesar de em muitos casos manterem
a fidelidade à sua cultura acabaram incorporando-os ao clima
tropical brasileiro dando origem ao nosso maior patrimônio,
a pluralidade racial e cultural cujo convívio harmônico nos
diferencia da maioria dos povos do planeta.
Inegavelmente a contribuição estrangeira
na formação da nação brasileira é tão importante e necessária
para a compreensão de nosso modo de ser, ou seja, para explicar
o nosso comportamento que não se consegue mais separar as tradições
e os hábitos daqueles que aqui se estabeleceram e criaram raízes,
pois acabaram tornando-se todos brasileiros, cúmplices de uma
nação mestiça que adquiriu maturidade cultural própria sabendo
com maestria perceber as diversas influencias a que foi submetido,
incorporá-las ao seu cotidiano e dar-lhe um caráter definitivo
nacional, mérito talvez dificilmente igualado por outros povos.
Eis aí o mistério pátrio, a unificação pluriracial invejada
por muitos e motivo de orgulho para todos nós.
Seja nas artes plásticas, no teatro,
cinema ou na música popular a presença estrangeira foi um dos
componentes fortes de consolidação da cultura brasileira, pois
seus protagonistas nacionalizaram-se a tal ponto que o Brasil
passou a ser a sua pátria, outros foram os filhos de imigrantes,
portanto, brasileiros, mas que não tirariam de seu olhar a cultura
ancestral, contudo, ela precisaria ser transformada num modelo
tipicamente nacional com características próprias. Quem soube
muito bem se aproveitar da sua tradição importada e nacionalizá-la
criando um regionalismo urbano na musica popular que marcaria
definitivamente a identificação do povo paulista fruto dessa
miscigenação foi Adoniran Barbosa, ou João Rubinato, seu verdadeiro
nome, nascido em 6 de agosto de 1910 na cidade de Valinhos interior
paulista filho dos imigrantes italianos Fernando e Emma Rubinato.
Sua vida foi inteiramente dedicada
a arte atuando no radio, cinema, teatro, televisão e na musica
como compositor, esta a atividade que lhe deu mais notoriedade.
Foi ao seu tempo o cronista das ruas, becos e avenidas da cidade
de São Paulo, percebendo o calor de sua gente, suas transformações,
a contribuição estrangeira em seu crescimento, enfim, Adoniram
foi o porta-voz sonoro de uma cidade que ele viu no século vinte
crescer e tornar-se orgulho nacional pela sua pujança econômica
e a força de todos que nela foram conquistar um lugar ao sol
e construir a sua riqueza. Poucos como ele conseguiram captar
a essência paulistana dando-nos a impressão que seu espírito
permanece ainda em cada canto, em cada monumento, no olhar e
andar de seus moradores, enfim, na sua alma, assim Adoniram
e São Paulo acabaram fundindo-se num so corpo, numa unidade
indivisível.
Depois de tornar-se uma dessas raras
unanimidades quando a glória já lhe beijava os pés após quase
cinqüenta anos de atividade artística era chegada a hora de
ele mesmo registrar suas próprias musicas imortalizadas já há
muito por outros intérpretes. Assim em 1974 a convite do produtor
musical J. B. Botezeli, o Pelão, foi convidado para gravar um
disco na Odeon, em suas instalações paulistas. Acompanhado por
um time de excelentes músicos como, Xixa no cavaquinho, Marçal
na percussão, Miranda e Theo de Barros no violão, o LP teria
arranjos e regências do maestro Jose Briamonte que procurou
dar um caráter simples aos arranjos a fim de preservar a naturalidade
do compositor, a única exceção por ele concedida foi no samba
canção Bom dia tristeza, de Adoniram e Vinicius de Moraes, incorporando
uma introdução de violinos e violoncelos.
Após a gravação o disco foi submetido
a censura federal, estávamos no governo Médici e os “intelectuais”
da censura, acharam por bem cortar duas musicas, Samba do Arnesto
e Um samba no Bixiga, alegando que a primeira era permeada de
erros de português, o que ia de encontro a política de erradicação
de analfabetismo realizada através do Mobral e a outra por causa
de uma breve citação aos militares considerada por eles insultuosa.
Absurdos de uma ditadura preconceituosa e diminuta em densidade
intelectual. Mas eles detinham o poder e apesar dos apelos do
produtor o disco acabou saindo sem essas canções, e sim com
o seguinte repertório: Abrigo de vagabundos, As mariposas, Saudosa
maloca, Iracema, Já fui uma brasa, com Marcus César, Trem das
onze, Prova de carinho, com Herve Cordovil, Acende o candieiro,
Apaga o fogo Mané, Véspera de natal, Deus te abençoe, de Peteleco
e a já citada Bom dia tristeza, com Vinicius de Moraes.
O lançamento deu-se em julho de 1974
e o LP tornou-se um clássico da musica brasileira aclamado pela
imprensa. Dentre os inúmeros comentários favoráveis destaca-se
o do critico Jose Ramos Tinhorão publicada em sua coluna do
Jornal do Brasil de 1 de agosto de 1974, quando afirma que “para
quem sabe apreciar um bom prato regional em termos de música
popular, não há melhor oportunidade do que esta. Adoniran é
o que há de mais puro em sabor paulistano, em matéria de musica
popular”.
Aí esta, portanto um disco fundamental
da musica popular brasileira, pois, Adoniran Barbosa com sua
arte representa e reafirma a nossa democrática pluralidade cultural
contribuindo para nos conhecermos cada vez mais e melhor.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 20 de julho de 2005.
MÚSICAS:
1) Abrigo de vagabundos (Adoniran Barbosa)
2) Bom dia tristeza (Adoniran Barbosa/Vinicius de Moraes)
3) As mariposas (Adoniran Barbosa)
4) Saudosa maloca (Adoniran Barbosa)
5) Iracema (Adoniran Barbosa)
6) Já fui uma brasa (Adoniran Barbosa/Marcus César)
7) Trem das onze (Adoniran Barbosa)
8) Prova de carinho (Adoniran Barbosa/Hervé Cordovil)
9) Acende o candieiro (Adoniran Barbosa)
10) Apaga o fogo Mane (Adoniran Barbosa)
11) Véspera de natal (Adoniran Barbosa)
12) Deus te abençoe (Peteleco)
Ficha
Técnica
Produtor fonográfico: Industrias Elétricas e Musicais
Fabrica Odeon S/A
Diretor de produção: Milton Miranda
Direção musical: Maestro Jose Briamonte
Coordenação: Alfredo Corleto
Assistente de produção: J. B. Botezeli (Pelão)
Orquestrador e regente: Maestro Jose Briamonte
Diretor técnico: Z. J. Merky
Técnico de gravação: Zilmar Araújo
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Layout: Flavio Faria Foto: Rita de Cássia Trindade