No início dos anos sessenta era muito comum no Rio de Janeiro os chamados "shows de bolso". Ou seja, pequenos espetáculos que tinham como cenário uma famosa boate da época. E nesse contexto os palcos principais eram o Bottle's, o Bacarat e o Little Club, todos situados no Beco das Garrafas, uma pequena travessa sem saída da rua Duvivier em Copacabana, sede principal dos artistas da Bossa Nova e da nova geração que se afinava com aquele tipo de música.
Em junho de 1964 Aloysio de Oliveira resolveu produzir um desses shows com Dorival Caymmi e quatro meninas que haviam recém chegado da Bahia. Elas se notabilizariam com o nome artístico de Quarteto em Cy e despertavam a atenção do público na boate Bottle"s. Aloysio foi assisti-las e se empolgou com o talento do grupo, nascendo aí a idéia do espetáculo que tinha ainda a participação do conjunto Oscar Castro Neves. Tudo acertado, ficou decidido que as apresentações seriam na boate Zum Zum, na Rua Barata Ribeiro em Copacabana, e a estréia se daria no dia 10 de outubro.
Um acontecimento inesperado, porém, mudou os planos iniciais de Aloysio de Oliveira: a inclusão de ultima hora do poeta Vinícius de Moraes, fazendo com que se modificasse o roteiro planejado inicialmente. Era, portanto, necessário que se estabelecesse novas e definitivas bases para o show. Para isso, algumas reuniões foram realizadas para que no fim tudo saísse sem problemas. Sobre esses encontros preliminares é Cynara quem conta: "A primeira reunião foi na casa de Caymmi, em Copacabana. Nós ainda éramos muito tímidas, há pouco tempo no Rio e já misturadas a dois monstros sagrados da música. Mesmo assim enfrentamos a fera e trabalhamos com afinco nos arranjos apurados do Oscar. Aloysio pediu para Vinicius fazer as vinhetas de ligação para o show, ele sabia como ninguém costurar um show como aquele. Os ensaios corriam soltos e nossa relação de amizade com os monstros crescia num ambiente de trabalho superengraçado. Não sei quem era mais "palhaço", se o Vinícius ou o Caymmi".
Neste espetáculo temos um verdadeiro momento histórico da música popular brasileira, pois foi a primeira vez que Vinicius e Caymmi se apresentaram juntos, além de ser a estréia definitiva do Quarteto em Cy. O sucesso do show o levou a duas temporadas: a primeira se estendendo até fevereiro de 1965 e a segunda em fins do mesmo ano e entrando pelo verão de 1966. O êxito da produção se completaria com a intenção de Aloysio de Oliveira em registrar o show num disco. Ele então levou adiante seu projeto e partiu para a gravação.
Consciente que o ruído das pessoas falando, das palmas e as precárias condições técnicas para uma gravação ao vivo naquela época prejudicariam o resultado final do trabalho, Aloysio de Oliveira resolveu realizá-las no estúdio da Rio Som, situado na rua do Senado, onde costumeiramente realizava as gravações dos discos de sua gravadora, a Elenco. Vejamos o que ele diz a esse respeito em seu comentário na contra-capa do LP: "(...) A intenção aqui foi oferecer a vocês os mínimos detalhes dessa apresentação numa gravação em estúdio para ser possível observar, sem sacrifício de qualidade de som (o que pode acontecer numa gravação ao vivo), toda a beleza musical que este show proporcionou.
Fizemos questão, no entanto, de reproduzir no estúdio o show na sua íntegra e exatamente como foi interpretado, para que vocês possam ter a sensação de um show musical em sua verdadeira continuidade". Finalizados os trabalhos, o disco saiu no início de 1967 e nele podemos ouvir momentos mágicos da música brasileira.
No repertório LP temos como destaque "Berimbau", de Vinicius e Baden Powell; sambas como "Broto maroto", de Carlos Lyra e Vinicius e "Formosa", de Baden Powell e Vinicius; "Saudades da Bahia" e ..."Das rosas", de Dorival Caymmi, incluindo ainda uma interpretação antológica do Quarteto em Cy e Caymmi, em "História de pescadores". Vinicius também participa declamando "Carta a Tom" e o "Dia da Criação", além de apresentar oficialmente o Quarteto em Cy com as seguintes palavras que antecedem a interpretação de "Tem dó de mim", de Carlos Lyra: "Estas são as minhas menininhas, são as quatro baianinhas, que eu um dia descobri, Quarteto em Cy, se eu fosse solteiro, com as quatro casaria, elas sempre assim, cantando o dia inteiro só pra mim".
O sucesso do disco foi tão grande quanto o show e transformou-se num dos mais vendidos de toda a história da Elenco, uma das mais importantes gravadoras de música brasileira, responsável por momentos inesquecíveis da nossa canção. Como este, que revive com todo esplendor um encontro de grandes mestres e que já faz parte, com todos os méritos, de um belo capítulo da história da música popular brasileira, onde não faltam o molho carioca e o tempero baiano, misturados com muito talento em música, voz e poesia.
Luiz Américo Lisboa Junior
Músicas:
01 -
Bom dia amigo
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)
Quarteto em Cy
02 -
Carta a Tom
(Vinícius de Moraes)
Vinícius de Moraes
03 -
Berimbau
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)
Vinícius de Moraes e Quarteto em Cy
04 -
Tem dó de mim
(Carlos Lyra)
Quarteto em Cy
05 -
Broto maroto
(Carlos Lyra e Vinícius de Moraes)
Vinícius de Moraes e Quarteto em Cy
06 -
Minha namorada
(Carlos Lyra e Vinícius de Moraes)
Vinícius de Moraes e Quarteto em Cy
07 -
Saudades da Bahia
(Dorival Caymmi)
Dorival Caymmi e Quarteto em Cy
08 -
...Das rosas
(Dorival Caymmi)
Dorival Caymmi e Quarteto em Cy
09 -
História de pescadores
(Dorival Caymmi)
Dorival Caymmi e Quarteto em Cy
10 -
Dia da criação
(Vinícius de Moraes)
Vinícius de Moraes e Quarteto em Cy
11 -
Aruanda
(Carlos Lyra e Geraldo Vandré)
Quarteto em Cy
12 -
Adalgisa
(Dorival Caymmi)
Dorival Caymmi e Quarteto em Cy
13 -
Formosa
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)
Vinícius de Moraes e Quarteto em Cy
14 -
Final
Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes,
Quarteto em Cy e Conjunto Oscar Castro Neves.
Ficha Técnica
Vinicius/Caymmi No Zum Zum
Produção e direção: Aloysio de Oliveira
Assistente de produção: José Delphino Filho
Estúdio de gravação: Rio Som S/A
Engenheiro de som: Norman Sternberg
Técnico de som: Umberto Contardi
Capa: Eddie Moyna
Fotografias: Francisco Pereira e Paulo Lorgus