A música americana por força da dominação
capitalista dos Estados Unidos que impõe seu modelo cultural
influenciou várias gerações de artistas em outros países sendo
na maioria dos casos criticada pelos nacionalistas de plantão,
os xenófobos que não admitiam e não admitem interferências
externas na cultura pátria, buscando preservar suas raízes
de uma influencia que a descaracterize. Em parte eles tem
razão quando se vêem ameaçados pelo chamado imperialismo cultural
que muitas vezes acaba impondo-se em detrimento da cultura
nacional. A manutenção e a preservação cultural de uma nação
deve ser buscada, mas também deve ser devidamente divulgada,
senão a predominância do fator alienígena acabará sempre prevalecendo.
Por outro lado pode-se também manter
uma relação de cumplicidade e troca de experiências interculturais,
o que de certo modo é salutar, pois fortalece laços, expande
e divulga a cultura dos países envolvidos e o que é mais importante
assimila-se a essência do modelo e transforma-o num produto
tipicamente nacional. No caso da música popular brasileira
essa troca de experiências ou influencias como querem muitos,
existiu sempre, porém, como colonizados sempre absorvemos
mais dos americanos do que eles de nós, curvaram-se apenas
com a Bossa Nova.
Convenhamos, porém, que a música
norte americana apesar de sua hegemonia planetária não é tão
ruim assim, contudo, como acontece com todos os povos tem
também seus altos e baixos, lá com certeza existem os breganejos,
os axés da vida, os forrós eróticos, os pagodeiros oxigenados
etc... Sofrem como nós, contudo, como nós também, tem sua
parcela de culpa por se deixarem levar por esse tipo de música
(arg!), mas mesmo assim ainda cultuam seus verdadeiros valores,
não nos esqueçamos que dos Estados Unidos sairam o jazz, o
blues, o soul, o gospel, spirituals, além é claro, do rock
and roll.
Aqui no Brasil a disseminação desses
gêneros musicais influenciou uma grande quantidade de notáveis
artistas, sejam compositores ou intérpretes, e também ajudou
a criar um modelo nacional visto com olhares americanos, mas
com um molho nacional tão característico que de ianque só
tem a matriz, ou seja, a sua raiz primeira, os filhos e os
netos já ganharam nacionalidade própria, são brasileiros legítimos,
apenas descendentes de imigrantes musicais.
Quer um entre tantos exemplos, então
vamos lá! Falemos do síndico Tim Maia que muito jovem se entusiasmou
pela musica de cima do equador fazendo dela referencia para
a maturação de seu som, que ocorreria no final dos anos sessenta.
Fã incondicional do pop negro americano com destaque para
Ray Charles que fundindo o gospel com o blues criou o soul
music nos anos cinqüenta e de demais artistas que se notabilizariam
na década seguinte como Stevie Wonder e os grupos The Suprems,
Four Tops e muitos outros que esbanjavam brilho e talento
no cenário internacional, sendo a maioria contratada da gravadora
Motown cujos discos com seus intermináveis sucessos fizeram
a cabeça de muita gente em vários países, era obvio, portanto,
que acabassem desaguando por aqui, influenciando o jovem Tim
Maia, aquele dentre os nossos artistas que mais se afinou
com o modelo/gênero americano fundindo o soul music com o
baião e outros ritmos brasileiros criando o soul brasileiro
com um suinge próprio, e abrindo um mercado para outros artistas
que aderiram a essa linha.
A culminância desse trabalho surge
com a gravação de seu primeiro LP em 1970 que tinha apenas
seu nome como título e na capa uma enorme foto sua como um
grande cartão de apresentação. O repertório trazia canções
que seriam consideradas clássicas como, Primavera e Eu amo
você, de Genival Cassiano e Silvio Rochael, e Azul da cor
do mar. O suingue e o vozeirão de Tim Maia agradaram em cheio,
o LP ficou 24 semanas ininterruptas em primeiro lugar e foi
elogiado pelos mais importantes críticos da época, inclusive
os radicais emepebistas. A orquestra bem montada, a voz surgindo
como um furacão, as belas melodias e os arranjos impecáveis
deram a receita exata do sucesso. Surgia aí neste disco uma
nova escola em nossa musica popular, aquela cuja assimilação
estrangeira transformou-se num gênero brasileiro autentico.
Com sua interpretação de Coroné Antonio Bento, de João do
Vale e Luiz Wanderley e Padre Cícero em parceria com Cassiano,
tínhamos finalmente o nosso Ray Charles do sertão ou a mistura
perfeita de Luiz Gonzaga com James Brown.
Depois da gravação desse seu primeiro
LP Tim Maia seguiu seu caminho realizando inúmeros outros
trabalhos de sucesso, sendo criticado, aplaudido, polemizando,
debochando dos puristas, rindo, cantando e deixando ecoar
sua voz bem longe, a mesma voz que nos surpreendeu iniciando
com firmeza sua trajetória quando éramos angustiados/alegres/perseguidos/felizes/infelizes
e vivíamos a ilusão do pra frente Brasil! No meio da tormenta,
entretanto ele surge avassalador deixando um rastro de talento
e a certeza de que as influencias existem para serem nacionalizadas/reinterpretadas,
porem, só quem tem pleno domínio de seu chão consegue tal
proeza, ele tinha e o fez.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 17 de maio de 2005.
Músicas:
1) Coroné Antonio Bento (João do Vale/Luiz Wanderley)
2) Cristina (Carlos Imperial/Tim Maia)
3) Jurema (Tim Maia)
4) Padre Cícero (Tim Maia/Genival Cassiano)
5) Flamengo (Tim Maia)
6) Você fingiu (Genival Cassiano)
7) Eu amo você (Genival Cassiano/Silvio Rochael)
8) Primavera (Genival Cassiano/Silvio Rochael)
9) Risos (Fabio/Paulo Imperial)
10) Azul da cor do mar (Tim Maia)
11) Cristina nº. 2 (Carlos Imperial/Tim Maia)
12) Tributo a Booker Pitman (Cláudio Roditi)
Ficha
Técnica
Criação musical: Tim Maia
Coordenação de produção: Jairo Pires/Arnaldo Saccomani
Técnicos de gravação: João Kibelstis/Marcos/Célio/Ary/João
Moreira
Estúdios: Scatena Studios de Som/C,B.D.
Layout: Aldo Luiz Músicos
Bateria: Paulinho
Baixo elétrico: Zé Carlos, Capecacete (Primavera e Jurema)
Percussão: Guilherme
Violão de centro (Tim Maia)
Guitarra: Genival Cassiano
Vibrafone: Garoto
Piano e órgão: Carlinhos
Arranjos de base: Tim Maia
Arranjos de cordas: Maestro Waltel (Eu amo você/Risos/Cristina/Azul
da cor do mar/Você fingiu)/Maestro Waldir (Jurema/Primavera)/Maestro
Cláudio (Tributo a Booker Pitman) Vocal:Tim Maia/GenivalCassiano/Amaro/Fernando/Marcos/Malu/Regina/Dora.