Raul Seixas
Krig-Ha, Bandolo!
1973
Profeta do apocalipse, louco, místico
fundamentalista, parceiro de extra terrestres... aparentemente
qualquer pessoa com essas tendências seria vista pela sociedade
com uma certa reserva, mas quando ela mistura tudo isso num
caldeirão e transforma essas idéias em uma música da melhor
qualidade, numa levada rock com pitadas de musica popular tradicional,
aí todos param para investigar o que quer dizer aquele sujeito
que funde ritmos e sons com uma mensagem esotérica nitidamente
fora dos padrões, não deixando que ninguém fique indiferente
e saiam por aí cantando suas canções, mesmo que não a entendam.
Alias não era para entender mesmo.
Isso viria com o tempo, amadureceria depois de sua partida para
carpir no universo suas mensagens e torná-las imortais, pelo
menos no planeta Brasil onde já sabe que o único artista parido
em suas terras que ousou misturar rock, baião e xaxado, foi
um baiano de Salvador, fã de Elvis Presley e que viu no sertão
nordestino a figura do Rei do Rock e sua música personificadas
em uma célula rítmica descoberta por um senhor de Exu, que tocava
sanfona, falava bonito, compunha e cantava do mesmo jeito, pois
sim, só mesmo um baiano retado e porreta que poderia definir
Luiz Gonzaga como o Elvis Presley do Sertão. E ele como se definia?
Raul? Raulzito? Não importa! Aqui ele será Raul Seixas, aquele
que enxergou aonde ninguém havia visto horizonte, o profeta
da música popular brasileira cujas idéias permanecem no inconsciente
de muita gente. Um dia ainda garoto e franzino saiu da Bahia
e tomou o rumo do Rio de Janeiro, já era artista em sua terra,
tornou-se produtor de discos na gravadora CBS e no VII Festival
Internacional da Canção surpreendeu a platéia com Let me sing,
let me sing, letra e musica inusitada para os padrões tradicionais
da massa tupiniquim. No mesmo ano, 1972, conhece um poeta chamado
Paulo Coelho que participava do movimento hippie e que havia
fundado uma revista denominada 2001 onde não faltavam alusões
a física, discos voadores e a ideologia do mago inglês Aleister
Crowley, sintonia perfeita, estava feita a parceria.
Em 1973 o baiano lança a música Ouro
de tolo, letra e música de sua autoria, radiografando com muito
sarcasmo e irreverência o país da ditadura, êxito absoluto,
todos a cantam e ninguém mais permanece indiferente nem disposto
a ficar "com a boca escancarada cheia de dentes esperando a
morte chegar". Faltava o LP, a consagração final, e depois de
reunir algumas canções feitas com Paulo Coelho e outras sozinho,
incluindo também o sucesso Ouro de tolo, parte para a realização
do disco a convite da Phonogram responsável pelo selo Philips.
O LP sai em junho de 1973 e transforma-se num grande sucesso
com uma introdução e dez músicas que ouvidas em seqüência trazem
uma filosofia poética jamais vista na música popular brasileira,
a começar pelo título do álbum, Krig-ha, Bandolo! que era o
nome de uma fundação criada por Raul que propunha um novo tipo
de vida, a Sociedade Alternativa. Krig-ha, era também o grito
de guerra de Tarzan, que significa, cuidado!.
Algumas pessoas dizem que os clássicos
populares são construídos sem essa pretensão, é certo que ninguém
pode prever o destino de uma música, ela pode muito bem ser
um sucesso momentâneo e depois permanecer esquecida, outras,
porém, ficam como referencias, e criam chavões que são assimilados
pela população, quem por exemplo já não disse que era uma Metamorfose
ambulante? certamente muitas pessoas, e para saber como é estar
neste estado de espírito basta ouvir a música no disco. E o
imperador romano Julio César, Al Capone, Lampião, Jesus Cristo,
Jimmy Hendrix e Frank Sinatra, alguém ousaria misturá-los? Pois
Raul Seixas ousou e o fez e com sabedoria numa típica levada
estilo rock and roll.
Ainda temos o perfil autobiográfico
do compositor em Rockixe numa fusão de rock e grande orquestra
de metais como nos tempos da brilhantina, a irreverência maior
em Mosca na sopa, o lirismo explicito em How could I know e
em A hora do trem passar, as previsões apocalípticas em Dentadura
postiça, a balada em Cachorro urubu e, em As minas do Rei Salomão
o rock brasileiro country Jovem Guarda e universal.
Queiram os críticos mais ortodoxos
ou não este disco de Raul Seixas é histórico, básico e fundamental
para a música popular brasileira, pois ele é único, irresistível
e com mensagens atuais e permanentes. Ouvi-lo é um prazer constante!
01 -
Introdução: Good rockin tonight
(R. Brown)
02 -
Mosca na sopa
(Raul Seixas)
03 -
Metamorfose ambulante
(Raul Seixas)
04 -
Dentadura postiça
(Raul Seixas)
05 -
As minas do Rei Salomão
(Raul Seixas e Paulo Coelho)
06 -
A hora do trem passar
(Raul Seixas e Paulo Coelho)
07 -
Al Capone
(Raul Seixas e Paulo Coelho)
08 -
How could I know
(Raul Seixas)
09 -
Rockixe
(Raul Seixas e Paulo Coelho)
10 -
Cachorro urubu
(Raul Seixas e Paulo Coelho)
11 -
Ouro de tolo
(Raul Seixas)
Ficha
Técnica
Krig Ha, Bandolo!
Ficha Técnica:
Produção: Roberto Menescal
Diretores de produção: Mazola e Raul Seixas
Técnicos: Ary e Luigi
Auxiliar técnicos: Paulo Sergio e Luis Cláudio
Estúdio CBD
Corte: Joaquim Figueiras
Capa e contra-capa: Raul, Paulo, Edith, Aldo e Adalgisa
Rios
Encarte: Adalgisa Rios
Músicos:
Baixo: Paulo Cézar Barros e Alexandre
Bateria: Pedrinho, Bill French e Mamão
Guitarra: Raul Seixas e Jay Vaquer
Piano: Miguel Cidras e José Roberto
Teclados: Luis Paulo e Miguel Cidras Rivas
Berimbau: Paulinho Batera
Banjo: José Menezes
Pandeiro: Mazola |
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