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Orquestra Armorial
1975
A produção artística brasileira sempre
esteve ligada a movimentos ocorridos nas principais cidades
do sul do país, mesmo que seus protagonistas fossem de outras
regiões e isso é facilmente explicado pelo fato de o Rio de
Janeiro e São Paulo oferecerem toda a estrutura e visibilidade
necessárias para o lançamento e popularização de todas as
manifestações surgidas. A primeira foi ate 1960 capital do
país e a segunda seu eixo financeiro mais forte, conseqüentemente
nelas concentravam-se as gravadoras, principais estações de
radio, jornais, os mais importantes museus, enfim quem quisesse
vencer na vida artística tinha que emigrar para o sul do país,
alcançando o sucesso, ele se estenderia ao resto do território
e tornava-se portanto um elemento unificador da cultura nacional
representada por seus expoentes das varias regiões. Foi assim
que o fenômeno Luiz Gonzaga nos anos cinqüenta se estabeleceu,
e o Brasil de norte a sul ouviu seu canto e conheceu melhor
e mais profundamente a cultura do Nordeste.
Muitos movimentos estabelecem um
percurso contrario, ou seja, surgem em seus locais de origem
e depois de consolidados são divulgados nos centros mais desenvolvidos,
apesar de não ser uma regra eles ocorrem quando se verifica
que a força regional e a qualidade da sua produção cultural
se tornam unânimes em sua comunidade e o seu lançamento e
posterior divulgação em escala maior é apenas a continuação
de um trabalho já cristalizado, contribuindo assim para diminuir
a dependência dos centros mais prósperos e valorizando a capacidade
local de se fazer ouvir com mais intensidade, proporcionando
um movimento descentralizador e independente, fenômeno que
se ocorreu com menos intensidade nos anos setenta e oitenta,
veio com o crescimento das regiões metropolitanas a afirmar-se
criando um mercado próprio e auto sustentável.
As manifestações de caráter regional
que tomou conta do país foi batizado de Movimento Armorial
tendo entre seus idealizadores Ariano Suassusa e Cussy de
Almeida. Com uma proposta de divulgar a arte nordestina na
musica, teatro, literatura e artes plásticas, foi buscar em
nossas tradições mais profundas o seu sentimento nativista
produzindo uma expressão artística tipicamente nacional fundada
em nossos mitos e na cultura popular. No dizer de Ariano Suassuna
a Arte Armorial Brasileira "é aquela que tem como traço comum
principal a relação com o espírito realista e mágico dos folhetos
do Romanceiro Popular do Nordeste, Literatura de Cordel, com
a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus cantares
e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como o espírito
e a forma das artes e espetáculos populares com esse romanceiro
relacionados".
O especifico da musica criou-se,
a Orquestra Armorial de Câmara cuja estréia deu-se em 18 de
outubro de 1970 na igreja de São Pedro dos Clérigos em Recife,
data também do lançamento oficial do Movimento. Com uma sonoridade
que traduz todo um sentimento de brasilidade nordestina, a
música armorial se propõe a realizar uma arte brasileira erudita
a partir de raízes populares, utilizando instrumentos típicos
de nossa ancestralidade musical que remontam o barroco do
século XVIII, como a rabeca, a viola, o clavicórdio e a viola
de arco.
Em 1975 a Continental lançou o primeiro
LP da Orquestra Armorial e o que era um movimento artístico
regional localizado tornou-se numa das maiores expressões
nacionais de cultura dentro da vanguarda artística contemporânea
brasileira. Com um repertório composto de 12 peças, destacam-se
de Cussy de Almeida o principal compositor do movimento a
Abertura (em duas partes), Nordestinados, Aboio e o Kyrie.
O maestro Guerra Peixe um de seus mais entusiásticos divulgadores
comparece com Galope e Mourão. Capiba um dos mais representativos
compositores pernambucanos contribui com Sem lei nem rei,
o flautista Jose Tavares de Amorim com Ciranda armorial e
Pífanos em dobrado, ambas executadas com pífanos populares
feitos de taboca. Por fim temos Terno de pífanos, de Clóvis
Pereira e Repentes, de Antonio Jose Madureira.
A importância do Movimento Armorial
é fundamental para a compreensão das nossas raízes culturais
fincadas no imaginário popular, sua musica forte, doce e contemplativa
nos remete a vastidão das terras nordestinas, proporcionando-nos
um retorno a nossa ancestralidade e retomando uma linha evolutiva
de nosso cancioneiro que deságua na exata dimensão da compreensão
plural de um país que se completa e se agiganta com suas múltiplas
expressões culturais, unificando-o em sua diversidade e fortalecendo
sua identidade.
O disco da Orquestra Armorial lançado
originalmente em 1975 foi um marco nessa proposta renovadora
das artes brasileiras, surgiu de uma necessidade de se revisitar
a cultura popular a partir do Recife e indo parar nos mais
importantes centros do país como a legitima expressão de uma
arte que nos representa em plenitude.
Hoje em dia talvez sejam poucos os
que conhecem a musica armorial, no entanto é necessário que
ela se revitalize para que com todas as facilidades de comunicação
que temos ela se faça mais presente para sedimentar em nós
o sentido da nossa afirmação enquanto brasileiros.
Luiz Américo Lisboa Junior Itabuna,
15 de junho de 2005.
Músicas:
1) Abertura (Cussy de Almeida)
2) Galope (Guerra Peixe)
3) Ciranda armorial (Jose Tavares de Amorim)
4) Nordestinados (Cussy de Almeida)
5) Repentes (Antonio Jose Madureira)
6) Terno de pífanos (Clóvis Pereira)
7) Aboio (Cussy de Almeida)
8) Mourão (Guerra Peixe)
9) Pífanos em dobrado (Jose Tavares Amorim)
10) Sem lei nem rei - 1º. Movimento (Capiba)
11) Kyrie (Cussy de Almeida)
12) Abertura (Cussy de Ameida)
Ficha
Técnica
Produtor fonográfico: Discos Continental
Coordenação geral: Ramalho Neto
Assistente de produção: Waldemar Farias
Estúdio de gravação: Conservatório Pernambucano de Música
- Recife
Técnico de gravação: Aloísio Mello
Equalização: Estúdios Haway
Arte da capa: Ariano Suassuna
Texto da contra capa: Ariano Suassuna
Regências: Cussy de Almeida |
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