|
Orfeu da Conceição
1956
A função da música popular não é apenas
ser um elemento de entretenimento fugaz como acontece hoje
em dia com os "sucessos" fabricados a cada instante pelas
gravadoras e divulgados pela grande mídia. Nos tempos de hoje
o que mais se vê são canções com tiradas poéticas de tirar
o fôlego de qualquer pessoa que tenha um pouco mais de sensibilidade
e senso de ridículo. As letras de nossas canções atuais, diga-se
de passagens, há exceções, são de um primarismo terrível absolutamente
medíocres, o que de certo modo retrata o pouco caso dado a
esse componente fundamental na realização da obra musical,
ou, e esse é o problema que mais nos preocupa, o baixo nível
de escolarização de nossos atuais compositores, se é que podemos
assim chamá-los.
A situação é tão desesperadora que
nos parece que a crise sócio/econômico que passa o país atingiu
parâmetros estarrecedores na área cultural e reflete nos baixos
índices de avaliação educacional que são divulgados a todo
instante. Ora, é muito mais fácil escrever qualquer bobagem
e conquistar fama e dinheiro do que esquentar o precioso tempo
em bancos escolares. Em nome da "cultura" criamos um país
de iletrados, em prol do sucesso, destruímos os mais elementares
sinais de respeito à língua portuguesa. Mas de que adianta
ficar reclamando, afinal de contas, esse estado de coisas
esta tão disseminado que qualquer atitude contrária será logo
recebida como reacionária e elitista, que assim seja, não
me importo, pois pelo menos me dou o direito de estabelecer
um nível de discernimento que me imuniza contra essa proliferação
inculta e deletéria em que se envolveu a nossa tão bela e
rica musica popular, mas antes que alguém diga que isso sempre
existiu, que o discurso é velho e datado, devo dizer que nunca
e em nenhum período de nossa história musical, chegamos aos
níveis de mediocridade quanto aos que nos encontramos nos
dias atuais. Viva o Axé sertanejo pagodeiro!
Deixemos contudo, esses conceitos
que não irar mudar o quadro existente e vamos falar de Musica
Popular Brasileira, assim mesmo com as iniciais em maiúsculas,
verdadeira, poética, culturalmente correta, eterna, linda
e terna. Existem muitos aspectos em nossa canção popular que
precisam ser estudados com mais atenção, um deles é sua inclusão
em teatro, cinema ou televisão, compondo trilhas de peças,
filmes e em alguns casos isolados e antigos, de algumas telenovelas,
quando essas tinham por objetivo maior um trabalho de arte/cultura
mais elaborado onde as trilhas sonoras era uma parte fundamental.
Um dos momentos mais brilhantes de nosso
teatro deu-se com a estréia em 25 de janeiro de 1956 no Teatro
Nacional do Rio de Janeiro da peça Orfeu da Conceição, escrita
por Vinícius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e cenários
de Oscar Niemeyer. A História baseava-se na tragédia grega
do mito Orfeu, musico da Tracia e cuja lira tinha o poder
de encantar os animais numa perfeita comunhão do homem com
a natureza. Adaptada para a ambientação de uma favela carioca
onde não faltavam os elementos associativos do carnaval e
das escolas de samba, o protagonista Orfeu que a todos fascinava
iria se envolver com Eurídice, sua bem amada e após a sua
morte iria buscá-la mergulhado num misto de trevas e paixão
tentando resgatá-la para si.
O sucesso da peça foi muito grande
e protagonizado por atores negros como Haroldo Costa (Orfeu),
Lea Garcia (Mira) e Dirce Paiva (Eurídice). Aproveitando o
momento a Odeon lançou um LP com a sua trilha sonora contendo
a belíssima Valsa de Eurídice, de Vinicius de Moraes em arranjo
instrumental e as suas canções com Tom Jobim, Um nome de mulher;
Mulher, sempre mulher; Eu e o meu amor; Lamento do morro e
a inesquecível Se todos fossem iguais a voce. O disco ainda
traz o Monólogo de Orfeu, declamado por Vinicius. A orquestração
e os arranjos foram feitos por Tom Jobim, as canções interpretadas
por Roberto Paiva e o acompanhamento de violão por Luiz Bonfá.
Um disco histórico responsável pela
união primeira de dois gigantes, Tom e Vinicius, que com sua
arte souberam extrair momentos eternos de nossa canção popular,
cujos frutos iriam desembocar na Bossa Nova e depois com a
trajetória individual de cada um, onde a poesia e a musica
iriam encontrar um pouso seguro e os nossos ouvidos seriam
respeitados em sua dignidade.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 9 de dezembro de 2004.
Músicas:
1) Overture (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
2) Monólogo de Orfeu (Vinícius de Moraes)
3) Um nome de mulher (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
4) Se todos fossem iguais a voce (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
5) Mulher, sempre mulher (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
6) Eu e o meu amor (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
7) Lamento no morro (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
Ficha
Técnica
Intérprete: Roberto Paiva
Violão: Luiz Bonfá
Orquestra Odeon sob a regência de Tom Jobim
Capa: Raimundo Nogueira
Texto da contra capa: Vinicius de Moraes
Gravadora: Odeon |
Comente esta matéria
|
|
|
|
|
 |
|