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Mario Reis canta suas
criações em HI-FI
1960
No final dos anos vinte quando a
industria fonográfica deu seu grande salto qualitativo criando
a gravação elétrica muitos artistas que não tinham voz possante
puderam gravar suas músicas, mas se para os compositores essa
era uma grande oportunidade, a nova técnica proporcionaria
o surgimento também de novos e reveladores intérpretes e um
deles foi o cantor carioca Mario Reis. Oriundo de uma família
de classe média alta, desde jovem deixou aflorar seus pendores
artísticos e procurou sobreviver de seu talento.
Tomou aulas de violão com Jose Barbosa
da Silva, o famoso Sinhô, o "Rei do samba" e ingressou na
carreira em junho de 1928 gravando na Odeon seu primeiro disco
com duas musicas de seu mestre professor, De que vale a nota
sem o carinho da mulher e Carinhos da vovó. Seu estilo moderno
de interpretar o samba não passou despercebido e no mesmo
ano gravou mais quatro discos e oito musicas, com quatro de
Sinhô, destacando-se o samba Jura seu primeiro grande sucesso
e Gosto que me enrosco. Registrou também a primeira musica
gravada do jovem compositor mineiro Ary Barroso com o samba
Vou a Penha e em 28 de novembro gravou de Jose Francisco de
Freitas, o samba Dorinha meu amor, que foi um dos maiores
sucessos do carnaval de 1929. Portanto com dez canções gravadas
em seu ano de estréia como intérprete Mario Reis já era um
ídolo popular, fato não muito comum, pois como sabemos, são
poucos os artistas que tem uma ascenção tão rápida.
O que o diferenciava de seus contemporâneos
era sua maneira intimista de cantar o samba, sua voz era suave,
sem o vibrato típico dos artistas de sua época, ele fundou
um novo estilo interpretativo, sem retórica, com uma emissão
vocal reduzida, sintética, e com a capacidade de falar a letra
da musica dentro da melodia. Seu estilo único iria revolucionar
a estética da musica popular brasileira e criar uma escola
que iria ser um dos elementos inspiradores da formação interpretativa
dos cantores da Bossa Nova notadamente João Gilberto.
Em sua época Mario Reis foi o mais
moderno dos artistas, sua fama e prestigio aumentavam a cada
dia e a uma nova gravação, seu repertório é um dos mais significativos
da década de trinta, contando êxitos permanentes ate hoje
como, Rasguei a minha fantasia, de Lamartine Babo; Agora é
cinza, de Bide e Marçal; Quando o samba acabou, de Noel Rosa,
além das 24 composições gravadas com Francisco Alves incluindo-se
Fita amarela, de Noel Rosa; Formosa, de Nássara e J. Rui;
Se voce jurar, e O que será de mim, ambas de Ismael Silva,
Nilton Bastos e Francisco Alves.
Surpreendentemente Mario Reis abandonou
a carreira em 1936 no auge da fama, retornando apenas em 1939
com dois discos e em 1951 na Continental com quatro discos
e oito músicas, sendo quatro antigos sucessos de Sinhô por
ele anteriormente registrados além de uma canção de Ary Barroso,
Flor tropical e outra de Fernando Lobo, intitulada, Saudade
do samba. Vivendo recluso, sem aparições em público, Mario
Reis continuava sendo um mito da musica brasileira e uma referencia
muito forte, motivos suficientes que levaram Aloysio de Oliveira
então diretor artístico da Odeon a convencê-lo a gravar um
LP em 1960, o primeiro, portanto, de sua carreira. Convite
aceito, Mario antes de entrar no estúdio impôs a condição
de escolher sozinho o repertório do disco, que incluía antigos
sucessos como, O que vale a nota sem o carinho da mulher e
Deus nos livre do castigo das mulheres, de Sinhô; Mulato bamba,
de Noel Rosa; A tua vida é um segredo e Rasguei a minha fantasia
de Lamartine Babo. Solicitou ainda que Tom Jobim escrevesse
para ele duas músicas inéditas e Tom que o considerava um
precursor da Bossa Nova fez sozinho o samba, Isso eu não faço,
não e em parceria com Vinicius de Moraes compôs, O grande
amor. O disco ainda incluiu uma música também inédita do pianista
Mario Travassos de Araújo intitulada, Palavra doce. Os arranjos
foram do maestro Lindolfo Gaya e a orquestra que o acompanhou
foi de Oswaldo Borba, na contra capa um texto biográfico de
Lucio Rangel.
Apesar da maturidade as características
vocais de Mario Reis ficaram inalteradas demonstrando todo
seu virtuosismo e confirmando tudo que sobre ele já se havia
dito, contudo, agora se poderia ouvi-lo em plenitude, sem
as deficiências técnicas dos antigos 78 rotações. Ah! o nome
do LP é, Mario Reis canta suas criações em hi-fi (alta fidelidade
para os mais jovens). Precisa dizer mais alguma coisa para
considerá-lo fundamental? É so ouvir e conferir, e importante,
o LP foi relançado em CD numa coleção intitulada 2 em 1.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 26 de janeiro de 2005.
Músicas:
1) Palavra doce (Mario Travassos de Araújo)
2) Vamos deixar de intimidade (Ary Barroso)
3) O que vale a nota sem o carinho da mulher (Sinhô)
4) Yayá boneca (Ary Barroso)
5) Mulato bamba (Noel Rosa)
6) Rasguei a minha fantasia (Lamartine Babo)
7) Isso eu não faço, não (Tom Jobim)
8) Deus nos livre dos castigos das mulheres (Sinhô)
9) Linda Mimi (João de Barro)
10) A tua vida é um segredo (Lamartine Babo)
11) Vai-te embora (Francisco Matoso e Nonô)
12) O grande amor (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
Ficha
Técnica
Gravadora: Odeon
Produção: Aloysio de Oliveira
Arranjos: Lindolfo Gaya
Orquestra: Oswaldo Borba
Layout: César G. Vilela
Fotografia: Francisco Pereira |
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