|
Carnaval de Lamartine Babo
1955
Os termos saudosismo e saudosista
dizem respeito à melancolia que nos ataca quando nos lembramos
de algum acontecimento passado no qual tivemos ou não uma
participação ativa, mas que de alguma forma vivenciamos em
função da contemporaneidade do tempo em que ele se realizou.
Assim as pessoas vão vivendo, recordando muitas vezes suas
memórias aludindo-as a uma época que “não volta mais” e reafirmando
algumas máximas como, “tempos áureos aqueles”, “antigamente
as coisas eram bem diferentes para melhor”, “recordar é viver”
etc. Realmente a criatura humana quando vê se aproximar a
idade é atacado por um tipo de sentimento que os remete a
mocidade, principalmente quando verifica que as mudanças que
ocorreram no universo a sua volta para ele foram importantes
como espectador do desenvolvimento mas inferior no sentido
da qualidade de vida, na espontaneidade, na preservação e
manutenção de valores que na maioria das vezes encontra dificuldades
de serem assimilados pelos novos costumes fundamentados na
correria do trabalho e do consumo. Parece que as pessoas perderam
a capacidade de sonhar, de olhar para o lado e perceber o
outro, de manter e cultivar o lado lúdico da vida, em suma
de ser feliz sem a necessidade visceral de buscá-la unicamente
nos prazeres materiais, mas sim, nas coisas simples da vida,
vivenciando cada minuto de modo muito especial não se deixando
contaminar pelo lado obscuro da existência apesar de saber
que ele existe.
Nessa conjectura voltar ao passado
acaba tornando-se algo muito prazeroso porque é o momento
do reencontro com nossas fantasias, alegrias, prazeres, ou
ate mesmo melancolias guardadas na memória, mas que acabam
por se tornar fundamentais para uma boa reflexão sobre a existência
fazendo um balanço das realizações e do que ainda se pode
realizar, assim, o passado revive em cada um de nos e torna-se
presença constante na nossa vida presente ajudando-nos a sermos
pessoas cada vez melhores na direção do futuro.
Agora, pode um homem com apenas 51
anos de idade já ter lembranças suficientes que o remetam
a um sentido nostálgico muito profundo e ao mesmo tempo se
regozije de sua atuação no presente vivendo com otimismo novos
acontecimentos e fazendo planos? Claro que sim, e foi justamente
com esse espírito que o notável compositor carioca Lamartine
Babo, entrou no estúdio da gravadora Sinter em 1955 para gravar
seu primeiro LP com as suas melhores produções carnavalescas.
Àquela época ele já era um veterano, uma celebridade legítima
da cultura brasileira, suas realizações no campo da musica
popular já o tinham colocado na história de nossa canção,
portanto, ser saudosista ou acometido de saudosismo na realização
da gravação de seu disco era um comportamento muito natural.
O repertório é todo ele pautado na
sua produção carnavalesca que compreende o período de 1932
a 1939, época em que reinou quase que absoluto, produzindo
clássicos de nosso cancioneiro ate hoje lembrados. La estão
musicas imortais como, Rasguei a minha fantasia, Marcha do
amor, Ride palhaço, Hino do carnaval brasileiro, Linda morena,
História do Brasil, O teu cabelo não nega, parceria com os
Irmãos Valença, Marchinha do grande galo, com Paulo Barbosa,
Uma andorinha não faz verão, com João de Barro, Grau dez,
com Ary Barroso, Aí, hein!, e Boa bola, parceria com Paulo
Valença e Moleque indigesto, todas essas marchas fizeram a
história do carnaval brasileiro na década de trinta sendo
gravadas na ocasião por intérpretes do quilate de Francisco
Alves, Mario Reis, Carmen Miranda, Almirante, Castro Barbosa
e pelo próprio Lamartine Babo. Ao receber o convite para gravar
o disco Lamartine sentiu-se lisonjeado e pode reencontrar-se
com seu passado tendo a percepção exata de sua importância
para a musica popular e a cultura brasileira.
Acompanhado por uma orquestra sob
a direção de Lírio Panicalli o maestro cuidou que a produção
do disco revivesse a vibração dos grandes bailes carnavalescos
que abrilhantavam as festas de Momo, portanto, este LP hoje
histórico, nos revela uma parcela significativa e muito importante
com instantes mágicos de nossa produção musical revelando
aos mais jovens uma época em que o carnaval valia-se da espontaneidade,
longe da comercialização desenfreada que o contaminou já há
algum tempo. É como diz Lamartine Babo na contra-capa: “O
resto agora ficará por conta dos saudosistas. E eu agradeço
a tudo que fizeram por mim, levando um pouco de mim mesmo
para as suas discotecas, caso eu mereça tanta distinção”.
Pois é Lalá, a modéstia é um atributo que só os grandes homens
possuem!
Neste disco temos a verdadeira alma
de nossa gente, o espírito brincalhão e zombeteiro que nos
caracteriza e que foi captado com maestria por um gênio da
raça, Lamartine Babo, atemporal, imortal e fundamental. Acho
que ele acharia essas rimas finais muito fraquinhas!
Em tempo, a capa é do caricaturista
Lan.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 6 de abril de 2005.
Músicas:
1) Carnaval Brasil ou Hino do carnaval brasileiro (Lamartine
Babo)
2) Aí hein! (Lamartine Babo/Paulo Valença)
3) Uma andorinha não faz verão (Lamartine Babo/João de Barro)
4) Rasguei minha fantasia (Lamartine Babo)
5) Boa bola (Lamartine Babo/Paulo Valença)
6) Moleque indigesto (Lamartine Babo)
7) Ride palhaço (Lamartine Babo)
8) O teu cabelo não nega (Lamartine Babo/Irmãos Valença)
9) História do Brasil (Lamartine Babo)
10) Linda morena (Lamartine Babo)
11) Marchinha do grande galo (Lamartine Babo/Paulo Barbosa)
12) Marcha do amor (Lamartine Babo)
13) Grau dez (Lamartine Babo/Ary Barroso)
Ficha
Técnica
Produtor fonográfico: Companhia Brasileira de Discos
- Discos Sinter
Intérprete: Lamartine Babo
Acompanhamento: Orquestra e coro
Direção musical: Lírio Panicalli |
Comente esta matéria
|
|
|
|
|
 |
|