Iniciando este breve comentário sobre
mais um disco fundamental da música popular brasileira é necessário
que se faça algumas considerações a respeito do que determina
ser um disco fundamental. Trata-se não somente de seu sucesso
de vendas como muitas pessoas podem considerar, pois, nem
sempre o êxito comercial afirma a sua relevância, apenas coloca-o
num patamar de relativa importância, até porque se formos
ter esse parâmetro, por exemplo, nos dias de hoje estaríamos
irremediavelmente perdidos.
Um disco para ser avaliado e/ou ser
mencionado como de suma importância para a compreensão do
que de melhor se produziu na musica brasileira deve ser visto
por diversos aspectos, quais sejam, sua referencia dentro
de um contexto histórico de realização, o aprumo técnico,
o naipe de músicos participantes, a qualidade do repertório,
a novidade que representou possibilitando a abertura de novos
horizontes dentro de um panorama de renovação musical e o
talento de seu realizador, o artista, que idealiza e protagoniza
o resultado final.
Muitos discos lançados no Brasil
foram considerados importantes porque reuniam esses elementos,
contudo, necessariamente não se transformaram em fenômenos
de vendas, mas inserem-se numa seleta categoria de responsáveis
pela evolução estética da musica brasileira, do lançamento
de artistas bem representativos e/ou simplesmente por serem
considerados verdadeiras obras primas de realização musical
e que por si só tornam-se referencias obrigatórias quando
se pretende estabelecer uma linha coerente que determine sua
importância histórica.
A lista de discos que se enquadram
nessas características é imensa e também polêmica não só por
causa dos critérios por mim apresentados como também pela
variedade/heterogeneidade dos olhares musicais que temos.
Essas explicações são importantes
até porque já se faziam necessárias, mas não esgotam o assunto
deixando-me à vontade para retornar ao tema em outra oportunidade
e respaldam minhas intenções quando neste momento recorro
à análise de um disco em homenagem ao compositor Herivelto
Martins lançado pela gravadora Mocambo em 1957 por ocasião
das comemorações de seu jubileu de prata artístico. O LP tem
como título Carnaval de Rua de Herivelto Martins, e traz em
seu repertório sete musicas representativas da obra do genial
compositor carioca. A abertura inicia-se com uma apresentação
de Ary Barroso tecendo comentários sobre a importância de
Herivelto Martins para a música brasileira seguindo-se pela
Orquestra Mocambo com seus músicos e interpretes à primeira
canção, Saudosa Mangueira lançada em 1953, onde não faltam
citações nostálgicas ao bairro que deu origem a famosa Escola
de Samba, referindo-se inclusive a um de seus compositores
mais famosos, Cartola, que muitos àquela época julgavam que
havia morrido, em Lá em Mangueira, em parceria com Heitor
dos Prazeres, surgia um grande sucesso gravado em 1943 pelo
Trio de Ouro, grupo musical idealizado por Herivelto.
Em 1942 nasceria um clássico da música
brasileira o samba Praça Onze, de Herivelto e Grande Otelo,
tratando da demolição da famosa praça um dos mais famosos
redutos do carnaval carioca e que daria lugar a Avenida Presidente
Vargas, temos ainda o samba Laurindo, maior êxito do carnaval
de 1943, homenageando os sambistas das Escolas de Samba, além
de citar mais uma vez a demolição da Praça Onze. Mangueirense
convicto, Herivelto dedicou a Escola e ao bairro inúmeras
musicas, como Mangueira não, composta em função do surgimento
de um boato afirmando que a prefeitura iria derrubar o morro,
em parceria com Grande Otelo este samba protesto foi gravado
por Francisco Alves acompanhado pelo Trio de Ouro em 1943.
O disco ainda nos traz, Acorda escola de samba, em parceria
com Benedito Lacerda, gravada por Silvio Caldas em 1935, Bom
dia avenida, antítese de Praça Onze e também com Grande Otelo,
um belo samba de 1944 onde os autores se rendem a beleza da
Avenida Presidente Vargas realizando uma crônica do processo
de remodelação urbana do Rio de Janeiro afirmando que “só
quem viu a Praça Onze acabar tem direito a Avenida em primeiro
lugar”. Por fim temos Noite enluarada um samba muito bonito
composto com Heitor dos Prazeres Filho.
Com seu universo de morros, favelas
e escolas de samba, Herivelto Martins compôs um belíssimo
cenário musical, verdadeiro panorama da vida carioca e das
legítimas tradições de nossa cultura popular, eternizadas
em sua maioria nos festejos momescos. Eis aí um disco que
se notabiliza pela excelência de seu protagonista. É histórico,
belo e fundamental. Precisa dizer mais alguma coisa?
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 30 de março de 2005.
Músicas:
1) Apresentação de Ary Barroso
2) Saudosa Mangueira (Herivelto Martins)
3) Lá em Mangueira (Herivelto Martins e Heitor dos Prazeres)
4) Laurindo (Herivelto Martins)
5) Mangueira não! (Herivelto Martins e Grande Otelo)
6) Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo)
7) Bom dia Avenida (Herivelto Martins e Grande Otelo)
8) Noite enluarada (Herivelto Martins e Heitor dos Prazeres)
Ficha
Técnica
Produtor fonográfico: Fabrica de Discos Rozemblit Ltda
- Mocambo
Intérprete: Orquestra Mocambo
Texto da contra-capa: Bricio de Abreu.