Todas as gerações possuem seus poetas,
aquelas pessoas dotadas de uma rara sensibilidade que tem
o poder de transportar para as palavras todo o espírito de
sua época e com isso tornarem-se seu porta-voz. No entanto
é necessário que além do talento com o verbo se vivencie sua
época com muito vigor a fim de poder transmitir suas impressões
com realismo e não apenas como expectador tornando-se um cronista
com um olhar aguçado sobre os problemas, angustias e esperanças
que nutre como ser integrante de um universo em transformação.
Viver plenamente cada instante da
vida, participar dos dramas da sociedade, tornar-se referencia
na afirmação de valores, lutar por um mundo mais humano e
com justiça social e ainda por cima ter tempo de ser romântico
transmitindo emoções por todos os lados e firmar uma obra
que extrapola seu tempo tornando-a eterna, não é tarefa para
qualquer pessoa, é preciso além do talento, ter a argúcia
necessária para compreender em plenitude a sua verdadeira
importância histórica, perceber-se como um ser integrante
desse período vivido e captar cada instante como sendo único,
universalizá-lo e transpor com cores vibrantes uma mensagem
que será referencia de um tempo em que ator e autor social
se confundem. É dessa maneira que podemos identificar e reverenciar
figuras ilustres que muitos chamam de ícones de uma geração,
pessoas que ajudaram a transformar outras pessoas tornando-as
melhores contribuindo com sua arte para um mundo mais belo.
Um dos maiores personagens de seu
tempo, notadamente os anos setenta foi o cantor e compositor
Luiz Gonzaga Junior, o Gonzaguinha. Iniciando sua carreira
nos finais da década de sessenta sua consagração viria na
década seguinte como um de seus poetas mais notáveis. Musico
de rara inspiração é um dos poucos casos da música popular
brasileira cuja obra é praticamente toda autoral, ou seja,
sem parceiros, o que da a condição de analisá-la sem as fragmentações
de pensamento muitas vezes vista em parcerias onde na grande
maioria dos casos não se sabe onde começa e termina a participação
de um ou de outros compositores/poetas, apesar de seus incontestáveis
méritos.
Filho do Rei do Baião, Luiz Gonzaga,
o moleque Gonzaguinha não foi criado no Nordeste mais no Rio
de Janeiro onde vivenciou todas as sutilezas e malandragens
dos morros cariocas criando uma obra urbana e de grande conteúdo
social cujo reflexo deu-se logo no lançamento de seu primeiro
disco lançado em 1973 contendo a canção Comportamento geral
proibida pela censura militar.
Critico ferrenho dos desmandos da
ditadura e da falta de liberdade aos poucos foi-se deixando
levar pelos caminhos do coração conseguindo com maestria aliar
dramas sociais e políticos com paixão, sem ser piegas, mas
sim um incorrigível poeta romântico capitalizando como poucos
o universo feminino. Em 1980 já consagrado lança um disco
fundamental para a compreensão de seu pensamento, intitulado
De volta ao começo, conseguindo mesclar a sátira/critica social
com belas canções de amor, resultando num trabalho simplesmente
arrebatador, um verdadeiro panorama daquela época. Abrindo
o LP temos Questão de fé, fazendo uma referencia aos exilados
que estavam de volta ao país; em Ponto de interrogação, Grito
de alerta e Sangrando atinge o clímax de seu talento de incorrigível
poeta do amor criando três canções que são clássicos de nossa
canção moderna. Em Pequena memória para um tempo sem memória,
A cidade contra o crime, Marcha do povo doido e Achados e
perdidos, temos o artista em todo seu vigor tecendo criticas
sociais com uma linguagem clara, inteligível e que não deixa
dúvidas quanto ao seu conteúdo e significação, aqui o poeta
revela-se em completa sintonia e clara percepção de seu tempo/realidade
vivida.
Contudo, apesar de misturar amor com
dramas sociais cotidianos o que permeia todo o trabalho é
o profundo sentido de esperança de um novo país que se avizinhava,
pois, ele já não era o homem descrente dos primeiros tempos,
havia uma luz de esperança e alegria no ar, e isso fica bem
demonstrado no fabuloso samba, E vamos a luta, e na alegre
e descontraída Bié, bié, Brazil. Em De volta ao começo, que
da nome ao disco ele faz um retorno ao menino alegre e cheio
de esperanças que era e verifica que esse tempo esta de volta.
O LP ainda contem, Libertad mariposa, composta e interpretada
em espanhol, Paixão, Mulher e daí e Da vida, belas canções
que se integram plenamente no conjunto da obra.
Um trabalho que marca a trajetória
de um grande musico e poeta de nosso tempo que soube como
poucos perceber sua própria história e a de nosso país, tornando-se
no maior poeta/cronista de sua geração, que infelizmente foi
para o andar de cima numa triste manhã do dia 29 de abril
de 1991 mas cuja voz rascante/doce e bela juntamente com sua
musica e poesia vivem eternamente na memória de seus contemporâneos
e na história da musica popular brasileira, inscrita em letras
maiúsculas.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 16 de março de 2005.
Músicas:
1) Questão de fé
2) Ponto de interrogação
3) Marcha do povo doido
4) Libertad mariposa
5) E vamos a luta
6) Paixão
7) Grito de alerta
8) Sangrando
9) Amanhã ou depois/Achados e perdidos/Pequena memória para
um tempo sem memória
10) A cidade contra o crime
11) Bié bié Brazil
12) De volta ao começo
13) Da vida
Ficha
Técnica
Produtor fonográfico: Emi-Odeon Fonográfica, Industrial
e Eletrônica S/A
Direção de produção: Mariozinho Rocha
Produção executiva: Eduardo Souto Neto
Orquestrações e regências: Eduardo Souto Neto/Jota Moraes/Paulo
Maranhão
Técnicos de gravação: Serginho/Guilherme Reis/Mayrton/Roberto/Toninho/
Dacy/Bill
Técnicos de mixagem: Franklin Garrido/Serginho
Corte: Osmar Furtado
Capa: Tadeu Valério/J.C. Mello/Wilton Montenegro/Gonzaguinha
Participações especiais: Frenéticas (Marcha do povo
doido)/Milton Nascimento (Libertad mariposa)/Marília
Medalha (Achados e perdidos)/MPB4 (Pequena memória para
um tempo sem memória)/Luiz Gonzaga (Da vida).