Um dos temas muito recorrentes entre
pais, educadores, psicólogos, historiadores e todos que se
dedicam a compreender o desenvolvimento das relações humanas
em suas contradições e afinidades é o conflito de gerações,
ou a sua influencia no curso do processo evolutivo da criatura
humana. Cada época tem suas características próprias e as
pessoas que as vivenciam tornam-se protagonistas de um tipo
de comportamento/atitudes peculiares ao seu tempo vivido,
assimilando seus valores, interesses, visão de mundo, etc.
Quando, porem, se chega a madureza, as transformações ocorridas
ao longo dos anos provocam uma certa perplexidade e em muitos
casos uma difícil assimilação com os novos costumes, modos
e atitudes que a sociedade passa a exercer e nesse contexto
a dificuldade fica explicita no contato com gerações mais
novas cujos valores se diferenciam dos mais velhos, dando-se
aí um conflito que se bem trabalhado pode trazer benefícios
para os dois lados, já que um aprende com o outro numa troca
de experiências muito enriquecedoras, evitando-se assim radicalismo
e atitudes que possam dificultar o entendimento e a marcha
evolutiva da humanidade.
Mas se o homem em sua trajetória
esta fadado a evoluir sempre, ele tem que aprender a conviver
com as diferenças, tolerá-las para poder situar-se dentro
de seu tempo acompanhando as mudanças e fazendo de sua experiência
um modelo positivo para as novas gerações, assim ele estará
permanentemente atualizado e a idade só será percebida pelas
transformações ocorridas no seu corpo físico, já que o espírito
encontra-se jovem e em perfeita sintonia com o tempo presente.
Partindo desses pressupostos verificamos
que o encontro de gerações pode contribuir para o enriquecimento
da humanidade devendo ser estimulada em todos os níveis, e
quando ela ocorre nas artes proporciona invariavelmente momentos
de rara beleza, onde se verifica que entre o velho e o novo,
só existem uma breve passagem de tempo cronológico entre um
e outro, já que o talento não prevalece simplesmente por causa
de cabelos brancos ou não.
Foi num desses belos momentos que
se deu o encontro de Tom Jobim e Edu Lobo onde a madureza
de um e a maturidade do outro se refletiu em momentos de encantamento
poético/melódico perpetuados num disco por eles gravado em
novembro de 1981 com o simples titulo de Edu & Tom, Tom &
Edu, demonstrando que o encontro de gerações como foi dito
pode e deve ser estimulado, pois neste caso, cada um trouxe
além do talento inigualável, a característica individual que
cada um tem sobre o processo de criação, sendo Edu Lobo "filho"
da Bossa Nova e Tom Jobim um de seus mais importantes criadores,
demonstrando que a fronteira entre gerações neste caso so
existe para complementar-se e enriquecer mais ainda o lado
belo da vida.
Convidado para participar como pianista
numa das faixas de um LP que Edu Lobo estava preparando com
a presença de inúmeros músicos e cantores, Tom Jobim ao adentrar
nos estúdios iniciou a introdução de Pra dizer adeus, de Edu
e Torquato Neto e pediu também para participar da gravação
de Canção do amanhecer, de Edu e Vinicius de Moraes. Sob os
olhares atentos do produtor Aloysio de Oliveira, este viu
que existia uma perfeita sintonia entre os dois artistas e
sugeriu então que Edu Lobo e Tom Jobim dividissem inteiramente
o disco entre eles, modificando a idéia original da concepção
do LP. O resultando foi brilhante, com elogios de ambas as
partes, com Edu referindo-se a Tom Jobim como o traço mais
amplo e perfeito de todos os arquitetos musicais que conhecia
e Tom lembrando-se do menino que viu crescer e que se transformou
num homem talentoso e musico respeitável pois, alem de belas
canções, arranja, escreve, rege, canta e toca violão.
O repertório do disco é composto
de musicas de ambos, todas inesquecíveis como, Ai, quem me
dera, Tom Jobim e Marino Pinto; Pra dizer adeus, Edu Lobo
e Torquato Neto, Chovendo na roseira, Tom Jobim; Moto contínuo,
Edu Lobo e Chico Buarque; Ângela, Tom Jobim; Luiza, Tom Jobim;
Canção do amanhecer, Edu Lobo e Vinicius de Moraes; Vento
Bravo, Edu Lobo e Paulo César Pinheiro; É preciso dizer adeus,
Tom Jobim e Vinicius de Moraes e Canto triste, Edu Lobo e
Vinicius de Moraes.
Um disco para se ouvir sempre todas
as vezes que se quiser apreciar momentos inesquecíveis da
musica popular brasileira.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 9 de fevereiro de 2005.
Músicas:
1) Ai quem me dera (Tom Jobim/Marino Pinto) - Edu e Tom
2) Pra dizer adeus (Edu Lobo/Torquato Neto) - Edu e Tom
3) Chovendo na roseira (Tom Jobim) - Edu Lobo
4) Moto contínuo (Edu Lobo/Chico Buarque) - Edu e Tom
5) Ângela (Tom Jobim) - Tom Jobim
6) Luiza (Tom Jobim) - Edu e Tom
7) Canção do amanhecer (Edu Lobo/Vinícius de Moraes) - Edu e
Tom
8) Vento bravo (Edu Lobo/Paulo Cesar Pinheiro) - Edu e Tom
9) É preciso dizer adeus (Tom Jobim/Vinícius de Morses) - Edu
e Tom
10) Canto triste (Edu Lobo/Vinícius de Moraes) - Edu Lobo
Ficha
Técnica
Direção de produção: Aloysio de Oliveira Técnicos de gravação: Ary Carvalhaes/Luiz Cláudio
Auxiliares: Julinho, Charles, Manuel e Carlos Jorge
Mixagem: Luigi Hoffer Montagem: Wiliam Tardelli Fotos: Ana Lontra Jobim/Januário Garcia Layout e arte final: Jorge Viana Estúdio: Polygram - Rio de Janeiro