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Caymmi visita Tom
1964
Existem coisas na vida que devem
ser aproveitadas ao máximo, são prazeres, digamos, inenarráveis,
que apesar de simples enchem de alegria nossa existência.
Para muitas pessoas os momentos bons da vida devem ser vividos
intensamente para serem eternamente lembrados. Porém, apesar
de muitos considerarem fama, dinheiro, sucesso profissional,
valores que adoçam a existência, são nos pequenos prazeres
que encontramos a verdadeira felicidade, ou chegamos perto
dela. Isso porque o que vale mesmo são aqueles instantes compartilhados
com harmonia, paz de espírito, livres de superficialidades,
espontâneos, pois, dessa forma eles acontecem mais serenamente
e fluem com mais freqüência e intensidade.
Se formos fazer um balanço de como
anda a vida das pessoas no mundo atual verificaremos sem maiores
dificuldades que vivemos em um planeta estressado, correndo
sempre atrás de resultados que nos supram a sobrevivência
e depois de algumas conquistas, gastamos todas as economias
em coisas supérfluas, dominado que somos pelo mercado de consumo
a fim de extravasarmos as nossas vaidades. É uma vida superficial
que invariavelmente nos leva a uma perspectiva enganosa do
que sejam os verdadeiros prazeres da existência, daí a constatação
de que as frivolidades do mundo moderno nos consomem tão vorazmente
que nem sequer não nos damos conta de as quantas andam nossa
relação com o universo que nos cerca acarretando problemas
existências presentes e futuros.
Nessa conjetura devemos então ficar
atentos para não nos deixarmos envolver com situações desnecessárias,
aumentando a sua importância e somatizando seus resultados,
deixemos, portanto, nos levar pelo nosso livre arbítrio com
responsabilidade e vigilância necessária para que os acontecimentos
importantes que vivenciarmos surjam de forma espontânea, pois
serão mais verdadeiros e deixarão um legado de saudade e frescor
muito agradáveis quando relembrados, pois serão muito especiais,
assim, construiremos nossas biografias com mais segurança,
tranqüilidade e certeza de que não nos deixamos seduzir pelas
futilidades e valores pífios que a vida nos oferece, e teremos
então sido plenamente felizes e realizados.
Foi justamente pensando nos momentos
de encantamento que podemos proporcionar a nos mesmos e aos
nossos amigos e familiares que se deu uma reunião de músicos
da mais alta linha da canção brasileira, resultando na perpetuação
de um trabalho magnífico, atemporal, permanente. O ano era
1963 e o produtor Aloysio de Oliveira dono da gravadora Elenco
resolveu unir a família Caymmi ao talentoso compositor bossanovista
Tom Jobim para uma gravação onde predominaria a intimidade
e a espontaneidade de um encontro de grandes músicos num clima
de festa em família, mas, sem as artificialidades de uma típica
gravação de estúdio.
A idéia era justamente que na informalidade
dos convidados surgissem momentos únicos, aqueles que só aconteceriam
se fossem realizados sem nenhuma preparação prévia, naturalmente.
Para esse encontro musical foram também chamados o baixista,
Sergio Barroso e os bateristas Do Um Romão e Edson Machado,
com o objetivo de fazerem o acompanhamento e darem também
sua canja na reunião. As gravações ocorreram em um clima ameno
e esse encontro musical definiu as vidas de alguns de seus
personagens. Estavam presentes além de Tom Jobim e Dorival
Caymmi os filhos e a esposa do compositor baiano, Nana, Dori,
Danilo e Stela. Como em toda reunião de amigos fraternos houve
trocas de gentilezas e Caymmi ofereceu a Tom Jobim a inédita
canção...Das rosas e Tom devolveu com a também inédita, Só
tinha de ser com você em parceria com Aloysio de Oliveira,
duas musicas que brevemente se tornariam clássicas. Nana Caymmi
que vinha de um casamento desgastado e morando na Venezuela,
estava passando uma temporada no Brasil e ainda tinha dúvidas
quanto as suas pretensões em ser cantora profissional, depois,
portanto, de ter cantado nesse disco Inútil paisagem, de Tom
e Aloysio de Oliveira, acompanhada do pai e num belíssimo
vôo solo, Sem você, de Tom e Vinicius e Tristeza de nós dois,
de Durval Ferreira, Bebeto e Maurício Einhorn, definiu de
vez sua vocação resolvendo seguir carreira como intérprete.
Dori Caymmi também sentiu-se estimulado e a partir de então
profissionalizou-se como violonista, arranjador e depois cantor,
um artista completo.
De todos o mais jovem era Danilo
Caymmi, que aos 16 anos estudante de flauta, não fez feio
ao lado de músicos consagrados e tornou-se num dos mais talentosos
instrumentistas e compositores de sua geração, chegando inclusive
a participar da Nova Banda grupo musical que acompanhou Tom
Jobim em seus últimos anos.
O repertório do disco que foi lançado
no suplemento de 1964 da gravadora inclui ainda Saudades da
Bahia, samba clássico de Dorival Caymmi, interpretado num
magistral dueto por Jobim e Caymmi, Vai de vez, de Roberto
Menescal e Lula Freire e Berimbau, de Vinicius e Baden Powell,
apresentadas de maneira instrumental pelos filhos de Caymmi
acompanhados dos músicos convidados, por fim, Canção da noiva,
de Dorival Caymmi, interpretada divinamente por sua esposa
Stela, cantora de belos recursos vocais, mas que abandou precocemente
a carreira por causa do casamento.
Com uma capa idealizada como um recorte
de jornal bem ao estilo moderno da produção gráfica da gravadora
Elenco, este disco reafirma o conceito de que para serem grandes,
os bons momentos da vida devem ser construídos espontaneamente,
repletos de paz e felicidade entre seus participantes e protagonistas,
deixando para a história a tarefa de perpetuá-los e transformá-los
em saudade, a audição do desse LP, portanto, nos remete a
isso, consagrando-o definitivamente como fundamental para
a musica popular brasileira.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 22 de março de 2005.
Músicas:
1) ...Das rosas (Dorival Caymmi)
2) Só tinha de ser com você (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
3) Inútil paisagem (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
4) Vai de vez (Roberto Menescal/Lula Freire)
5) Saudades da Bahia (Dorival Caymmi)
6) Tristeza de nós dois (Durval Ferreira/Bebeto/Maurício Einhorn)
7) Sem você (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
8) Canção da noiva (Dorival Caymmi)
Ficha
Técnica
Produção artística: Aloysio de Oliveira
Piano: Tom Jobim
Violão: Dori Caymmi
Bateria: Do Um Romão e Edson Machado
Contra baixo: Sergio Barroso
Flauta: Danilo Caymmi
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