O ambiente musical dos anos sessenta
com a profunda renovação que se operava na musica popular
brasileira produziu inúmeros festivais onde os novos talentos
surgidos podiam expor seus trabalhos, ganhar um espaço maior
diante do publico e conseqüentemente impulsionar suas carreiras.
Muito já se falou da importância desses festivais para a cultura
brasileira, porém, pouco ou quase nada se fala sobre a realização
da I Bienal do Samba promovido pela TV Record e Revista Intervalo
durante os meses de maio e junho de 1968. Produzido para ser
um contraponto aos festivais nacionais e internacionais realizados
pela própria TV Record e Rede Globo privilegiando um gênero
musical especifico, estabelecia como critério para a inscrição
das musicas que elas fossem de autores já conhecidos a fim
de estimular e valorizar nomes de jovens e antigos compositores.
O palco era o badalado Teatro Record
em São Paulo e a grande divulgação que se fez em torno do
evento estimulou muitos compositores e intérpretes a participar,
dentre eles os da já chamada velha guarda que vislumbraram
na Bienal uma oportunidade de terem seus nomes e suas obras
destacadas, já que não estavam tão em evidencia em função
da força jovem da musica popular que tomava praticamente todos
os espaços dos meios de comunicação. Dessa forma artistas
como Ismael Silva, Pixinguinha, Walfrido Silva, Wilson Batista,
Cartola, Pedro Caetano, Claudionor Cruz, Germano Mathias,
Jorge Veiga, Isaura Garcia, Nora Ney, Jorge Goulart, Demônios
da Garoa, Adoniran Barbosa, Helena de Lima, Miltinho, Ciro
Monteiro, Ataulfo Alves dentre outros, dividiram democraticamente
seus espaços com Chico Buarque, Elis Regina, Jair Rodrigues,
MPB 4, Márcia, Maríla Medalha, Milton Nascimento, Edu Lobo,
Baden Powell, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Marcus e
Paulo Sérgio Valle, Sidney Miller e mais alguns jovens talentos
durante a realização das três eliminatórias realizadas respectivamente
nos dias 11, 18 e 25 de maio.
Durante os anúncios que antecederam
realização da Bienal do Samba houve uma grande correria para
a inscrição das musicas, porem, o fato mais curioso se deu
entre dois artistas com carreiras e propostas diametralmente
opostas no cenário de nossa canção popular. Morando nos Estados
Unidos e sabendo da realização da Bienal, Antonio Carlos Jobim
queria dela participar, mas na impossibilidade de enviar uma
música do exterior, resolveu então fazer uma letra em português
para a canção Wave, por ele recentemente gravada, e que seria
rebatizada com o título de Onda, contudo, essa que é uma das
mais conhecidas musicas de nosso grande maestro, não pode
participar da Bienal do Samba porque seu intérprete, Roberto
Carlos, não quis interromper a lua de mel com sua primeira
esposa Nice, frustrando sem o saber é claro, a fusão inédita
e histórica da Bossa Nova com a Jovem Guarda.
O evento ficou marcado também pela
estrepitosa vaia dada a Ciro Monteiro quando este interpretava
a música Tive sim, de Cartola, demonstrando que nem sempre
a voz do povo representa uma unanimidade de gostos, preferências
e qualidade musical. A final realizou-se no dia 1 de junho
e teve como vencedores em 1º. lugar, Lapinha de Baden Powell
e Paulo César Pinheiro interpretada por Elis Regina, musica
que quase não era inscrita porque os organizadores recusaram
o nome de Paulo César Pinheiro por ser muito jovem e ainda
desconhecido, porem, desistiram, diante da ameaça de Baden
em retirar a musica da competição. O 2º. lugar ficou com Bom
tempo, de Chico Buarque por ele defendida, em 3º. Pressentimento,
de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, com Marilia
Medalha, em 4º. Canto chorado, de Billy Blanco, interpretada
por Jair Rodrigues, em 5º. Tive sim, de Cartola, defendida
por Ciro Monteiro e em 6º. lugar Coisas do mundo, minha nega,
de Paulinho da Viola, interpretada por Jair Rodrigues.
Apesar do êxito do evento houve algumas
controvérsias a respeito da autoria de duas músicas, a primeira
dizia respeito a Lapinha denunciada como sendo um plágio do
folclore baiano pelo jornalista Augusto Mario Ferreira em
matéria publicada no jornal Última Hora em sua edição do dia
1 de junho, levando os autores a se defenderem afirmando que
apenas tinham se utilizado de um tema popular, nada mais que
isso, versão que acabou prevalecendo, a outra canção de autoria
contestada foi Quando a polícia chegar, segundo o qual João
da Baiana tinha se apropriado da primeira parte de um antigo
samba executado nas antigas festas da Casa de Tia Ciata e
cuja letra já havia sido publicada no livro Cor, paixão e
mobilidade, da autoria do antropólogo João Batista Borges
Pereira.
A fim de se reafirmar o largo interesse
despertado pela Bienal do Samba no meio artístico, apresentaremos
a seguir todas as concorrentes com seus respectivos autores
e intérpretes nas três eliminatórias:
1º. Eliminatória - 11 de maio de 1968 1) Lapinha - Baden Powell/Paulo César Pinheiro) - Elis
Regina
2) Ingratidão (Ismael Silva) - Isaura Garcia
3) Sandália da mulata (Donga/Walfrido Silva) - Germano Mathias
4) Tião, braço forte (Marcus Valle/Paulo Sergio Valle) - Milton
Nascimento
5) Foi ela (Zé Keti) - Zé Kéti
6) Mulher, patrão e cachaça (Adoniran Barbosa) - Demônios
da Garoa
7) Escola de samba (Luis Antonio) - Helena de Lima e Miltinho
8) A Feiticeira do Araxá (Noel Rosa de Oliveira/Anescar/Ivan
Salvador) - Jorge Goulart
9) Bom tempo (Chico Buarque de Holanda) - Chico Buarque de
Holanda
10) Marina (Sinval Silva) - Noite Ilustrada
11) Pra frente (Pedro Caetano/Claudionor Cruz) - Djalma Dias
12) Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola) - Jair
Rodrigues
2º. Eliminatória - 18 de maio
1) Quem dera (Sidney Miller) - MPB 4
2) Samba da vida (Miguel Gustavo) - Araci de Almeida
3) Daí um jeito nesse mundo (Bidê/Antonio Almeida) - Moreira
da Silva
4) Senhor do mundo (Jair do Cavaquinho/Lauro Gomes) - Francisco
Egydio
5) Quando a polícia chegar (João da Baiana) - Clementina de
Jesus
6) Festival de amor (João de Barro) - Jair Rodrigues
7) Rio dos meus pais (Ataulfo Alves) - Ataulfo Alves e Suas
Pastoras
8) Procura-se um tema (Roberto Menescal/Rubens Richter) -
Gracinha Leporace
9) Tive sim (Cartola0 - Ciro Monteiro
10) Luandaluar (Sérgio Ricardo) - Marília Medalha
11) Samba arrasta multidão (Luis Reis) - Antonio Borba
3º. Eliminatória - 25 de maio
1) Sem sol e sem amanhã (Capiba) - Claudete Soares
2) Eu tenho tristeza (Antonio Nássara) - Paulo Marquez
3) Samba de protesto (Herivelto Martins) - Agnaldo Rayol
4) Choro chorado (Billy Blanco) - Jair Rodrigues
5) Guerra santa (Ciro de Souza/Mario Rossi) - Osvaldo Nunes
6) Canção do peregrino (Denis Brean/Guilherme de Almeida)
- Jorge Goulart
7) Protesto meu amor (Pixinguinha/Hermínio Bello de Carvalho)
-Maria Rosa
8) Rainha, porta bandeira (Edu Lobo/Ruy Guerra) - Márcia
9) Pressentimento (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho)
- Marília Medalha
10) Ela não é o que dizem (Nelson Cavaquinho) - Jorge Veiga
11) No mesmo lugar (Monsueto) - Monsueto e Irmãs Marinho
12) Um favor (Lupicinio Rodrigues) - Nora Ney
13) Samba do suicídio (Paulo Vanzolini) - Luiz Carlos Paraná.
No mesmo ano de 1968, o selo Philips
da Companhia Brasileira de Discos lançou um LP com as melhores
canções da Bienal, que além das seis primeiras colocadas ainda
incluía, Quem dera, de Sidney Miller, pelo MPB 4; Luandaluar,
de Sergio Ricardo, por Marilia Medalha; Marina, de Sinval
Silva, com Paulo Márquez,; Protesto, meu amor, de Pixinguinha
e Hermínio Bello de Carvalho, com Arlete Maria; Quando a polícia
chegar, de João da Baiana, com Jose Ventura e Rainha, porta
bandeira, de Edu Lobo e Ruy Guerra, interpretada por Márcia
e Edu Lobo.
Um disco histórico e fundamental da musica popular
brasileira por reunir ao mesmo tempo pérolas do repertório
da primeira fase de novos talentos que renovavam nosso panorama
artístico juntamente com outras belas canções de veteranos
famosos, inserindo-se também como um importante documento
representativo do espírito musical da época.
Apesar da brilhante iniciativa da TV Record
a Bienal do Samba mesmo com uma tímida tentativa realizada
em 1971 não teve continuidade. Mas se a idéia não prosperou,
deixou, contudo, plantada uma semente que germinaria através
do incentivo que deu aos novos talentos que ali se destacaram
consagrando carreiras, estimulando a retomada de outras e
confirmando o samba como nosso mais popular gênero musical.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 18 de abril de 2005.
Músicas:
1) Lapinha (Baden Powell/Paulo Cesar Pinheiro) - Elis Regina
2) Quem dera (Sidney Miller) - MPB 4
3) Luandaluar (Sérgio Ricardo) - Marília Medalha
4) Marina (Sinval Silva) - Paulo Márquez
5) Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola) - Jair Rodrigues
6) Protesto, meu amor (Pixinguinha/Hermínio Bello de Carvalho)
- Arlete Maria
7) Canto chorado (Billy Blanco) - Jair Rodrigues
8) Bom tempo (Chico Buarque de Holanda) - Claudete Soares
9) Tive sim (Cartola) - Paulo Márquez
10) Pressentimento (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho)
- Marília Medalha
11) Quando a polícia chegar (João da Baiana) - Jose Ventura
12) Rainha porta bandeira (Edu Lobo/Ruy Guerra) - Márcia e Edu
Lobo
Ficha
Técnica
Produção: Manuel Berembein, João Mello e Nonato Buzar
Direção: Armando Pittgliani
Produtor fonográfico: Companhia Brasileira de Discos
- Selo Philips