A história de um país se constrói
com as realizações de sua gente, suas lutas, conquistas, sua
educação, enfim tudo que lhe levará a um amadurecimento intelectual
e econômico proporcionando a seus protagonistas, ou seja,
seu povo as melhores condições de vida possíveis para que
possam ser felizes. É evidente que esse processo na maioria
das vezes encontra alguns obstáculos que estão enraizados
no âmago de seus próprios elementos constitutivos, e aqueles
que deveriam zelar pelo bem estar de todos, e conseqüentemente
de si próprios acabam falindo em suas iniciativas gerando
desconforto, insegurança quanto ao futuro, deixando um rastro
de incúrias e desserviço pátrio que irão manchar-lhes a biografia
e atrasar o ritmo de desenvolvimento da nação, esse quadro
infelizmente vem se agravando nos últimos tempos, quando se
percebe que os interesses pessoais prevalecem em relação aos
interesses e direitos da maioria.
Quando se chega ao extremo de tais
iniqüidades o país mergulha inexoravelmente numa profunda
crise moral, os costumes antes preservados como células de
grandeza e honradez se deterioram proporcionando resultados
lamentáveis. Contudo, existe sempre a possibilidade de se
perceber a tempo o perigo que se instala promovendo ações
no sentido de combatê-las, nesse momento deve-se ter um sentimento
altruísta com relação à pátria extirpando-lhes seus miasmas
e conferindo-lhe a cura moral, para isso é necessário que
se esteja com todas as instituições funcionando num regime
de liberdade, mas de responsabilidade diante da nação, operando
a justiça e conferindo a todos o direito de serem cidadãos
livres, honestos, cônscios de seus deveres para consigo e
com o país, só assim o crescimento se dará em plenitude e
as pessoas viverão fraternalmente dividindo com seus irmãos
os louros do progresso.
Mas se essa seria a nação ideal,
e sabemos que diante das imperfeições humanas ela demorará
ainda muito tempo para se estabelecer, pelo menos, muitas
iniciativas no sentido de tentar chegar a esse modelo já foram
postas em prática, e um dos exemplos mais contundentes de
se expressar o amor pelo país e respeito por seu povo é através
da arte, protagonizando momentos de puro encantamento e estimulando
o sentido da verdadeira nacionalidade para que possamos assim
termos orgulho de nossas conquistas, de nosso chão, da terra
abençoada que nos abrigou como filhos e que serão um dia de
nossos descendentes quando nela não habitarmos fisicamente.
A criação artística em seus níveis mais elevados aumenta substancialmente
nossa auto estima, faz-nos felizes e estimula-nos a construir
um país próspero e confiante.
Muitos foram os personagens que trabalharam
incansavelmente nesse sentido nas diversas expressões artísticas
e dentre elas no caso do Brasil a música popular se destaca,
pois, foi por muitos anos a porta voz dos nossos anseios e
se fazendo presente nos momentos mais importantes de nossa
história. Entre seus personagens destacamos o mineiro Ary
Barroso cuja obra se confunde com as cores da nação de tal
forma que passou a ser considerada patrimônio nacional, e,
onde quer que se vá mundo afora, sua Aquarela do Brasil se
faz presente, a tal ponto que muitos povos pensam ser a música
o nosso hino oficial, mas se não é de fato, passa a ser de
direito, tamanha a sua expressividade.
Ary Barroso em sua existência construiu
uma obra ampla e diversificada, foi gravado por grandes interpretes
nacionais e internacionais, porem, deixou poucas gravações
que perpetuariam seu virtuosismo como músico. Foram apenas
quatro discos, todos excepcionais, portanto fundamentais,
porém, destacaremos apenas o LP que gravou em 1959 na Odeon
sob o título, Meu Brasil brasileiro, em que ele toca piano
acompanhado de sua orquestra e coro.
A direção artística foi de Aloysio
de Oliveira, os arranjos do maestro Léo Perachi alem da participação
eventual de Oswaldo Borba no piano. No repertório Ary Barroso
nos proporciona um desfile de sucessos, Aquarela do Brasil,
Perdão, Quando a noite é serena, É mentira ôi, Folha morta,
Malandro sofredor, Na Baixa do Sapateiro, O correio já chegou,
Sonho de amor, Faceira, Foi ela e Falta de consciência. Trabalho
magnífico em que se observa todo o cuidado na condução das
canções por ele orientadas ao maestro, bem como seu talento
ao interpretar no piano a sua obra.
Um disco que traduz perfeitamente
o momento exuberante em que vivia a nação mergulhada num clima
de euforia e desenvolvimento, reafirmando a afirmativa de
que um país se faz grande quando grandes são seus homens,
e Ary Barroso foi um desses gigantes que enquanto se fez presente
entre nós não nos deixou dormir em berço esplendido, pelo
contrário, nos fez dançar e cantar sua música e com ela se
fez eterno dando-nos provas de que um povo pode sim fazer
a diferença e construir uma pátria digna e feliz. O som de
sua orquestra e as suas notas no piano, demonstram toda a
força desse Brasil grande, ético, altaneiro. Que falta faz
um Ary Barroso nos dias de hoje!
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 1 de junho de 2005.
Músicas:
1) Aquarela do Brasil
2) Perdão
3) Quando a noite é serena
4) É mentira, oi
5) Folha morta
6) Malandro sofredor
7) Na Baixa do Sapateiro
8) O correio já chegou
9) Sonho de amor
10) Faceira
11) Foi ela
12) Falta de consciência
Ficha
Técnica
Direção artística: Aloysio de Oliveira
Arranjos: Leo Perachi
Orquestra de Ary Barroso e coro
Participação: Oswaldo Borba no piano