Aracy de Almeida
O Samba em Pessoa
1958
Os anos cinqüenta foram marcados
na musica popular por ter revelado e consagrado diversos artistas
que se notabilizaram principalmente pelo forte poder que o rádio
mantinha como meio de comunicação, era a fase
áurea dos programas de auditório, e o Brasil vivia
um período de crescimento econômico muito promissor.
Contudo, o repertório praticado por muitos desses artistas
eram voltados para uma tendência que se materializou com
a forte penetração dos ritmos latinos no cenário
cultural brasileiro e que acabou abolerando o nosso samba tradicional,
fora isso, é curioso notar que apesar de toda euforia
desenvolvimentista o que predominava como poética musical
eram os intermináveis dramas muitos deles representados
por lancinantes traições tendo no compositor gaúcho
Lupicínio Rodrigues o maior expoente do gênero.
Havia também um certo baixo astral romântico que
vinha acompanhando alguns de nossos intérpretes e compositores,
era a chamada musica de fossa, que acabava tendo um apelo comercial
muito grande e atingia em cheio os corações das
pessoas despertando-as para uma reflexão sobre suas angustias
e sofrimentos pessoais. Em que pese a qualidade dessas canções,
títulos como “Meu mundo caiu” de Maysa, Bom dia tristeza”,
de Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes, “Vingança”,
“Ela disse-me assim”, Dona divergência” e “Nunca” todas
de Lupicínio, alem dos sucessos de Dolores Duran, “Fim
de caso”, “Solidão”, “Canção da tristeza”,
e “Castigo” predominavam no repertório das rádios
e invadiam os lares.
Apesar desse cenário a década de cinqüenta
também seria marcada pela redescoberta de grandes compositores
do passado e que já estavam sendo esquecidos do público,
foi o que aconteceu com Jose Barbosa da Silva, o Sinhô,
um dos fixadores do samba nos anos vinte que teve parte de sua
obra relembrada por um de seus mais fiéis intérpretes,
Mario Reis que também voltava à cena depois de
uma prolongada ausência e Noel Rosa, que seria revivido
com toda a riqueza de sua obra por Araci de Almeida.
Dentre os inúmeros relançamentos que se pretendiam
marcar e perpetuar nomes outrora consagrados, um disco em especial
se destacou e foi justamente gravado por Araci de Almeida, uma
de nossas mais importantes intérpretes. Apesar de ficar
nos últimos anos de sua vida conhecida pelas suas atuações
ranzinzas como jurada do programa de calouros de Silvio Santos,
Araci foi uma das mais completas sambistas e uma das mais brilhantes
cantoras de nossa música popular, não foi à
toa que lhe foi dado o título de “O samba em pessoa”,
termo que da nome ao seu disco lançado em 1958 onde demonstra
todo seu inigualável talento e retoma as raízes
do samba produzido nos anos trinta e quarenta.
O LP nos traz doze músicas iniciando-se com Batente,
de Almirante, radialista, pesquisador e compositor e que havia
sido primitivamente gravado em 1930 pelo Bando de Tangarás,
grupo formado por ele, Almirante, Noel Rosa, João de
Barro, Henrique Brito e Alvinho; Minha cabrocha, samba de Lamartine
Babo, autor que passeava pelos mais diversos gêneros com
muita competência, teve sua primeira gravação
realizada por João de Barro em 1930; Caco velho, de Ary
Barroso, nos da a verdadeira dimensão do talento desse
excepcional artista, tendo seu registro original sido feito
por Elisa Coelho em 1934; Teleco-teco, de Murilo Caldas e Marino
Pinto, originalmente gravado por Isaura Garcia em 1941, é
um samba buliçoso revelando que o chamado “ritmo do teleco-teco”
que muitos pensavam ter surgido nos anos cinqüenta, já
era divulgado uma década atrás; Passarinho...passarinho
é um samba pouco conhecido de Lamartine Babo, gravado
por Castro Barbosa em 1932.
O disco contem ainda, como não poderia deixar de ser,
quatro músicas do repertório de Noel Rosa, o clássico
Eu vou pra Vila, apenas de Noel gravado por Almirante e Bando
de Tangarás em 1930; Vitória, de Noel e Romualdo
Peixoto, o Nonô, um dos granes pianistas do samba, originalmente
gravado com muito sucesso por Silvio Caldas em 1933, Para me
livrar do mal, de Noel Rosa e Ismael Silva, gravado por Francisco
Alves em 29 de junho de 1932 e Adeus, samba clássico
assinado por Francisco Alves, Ismael Silva e Noel Rosa, tendo
sua gravação original sido realizada por Jonjoca
e Castro Barbosa em 1932
De Nilton Bastos, Ismael Silva e Francisco Alves temos Arrependido
samba característico da turma do bairro do Estácio
que fixou as bases definitivas do samba moderno tendo sua primeira
gravação realizada pela dupla de bambas, Francisco
Alves e Mario Reis em 28 de fevereiro de 1931; Tristezas não
pagam dívidas, de Manoel Silva é outra criação
original de Francisco Alves de 1932, e revela nesta versão
de Aracy de Almeida em uma participação especial
o talento de um jovem cantor que então se destacava como
uma promessa da musica brasileira, Carlos José que se
consagraria como sua voz grave cantando serestas.
Por fim o LP se encerra com É batucada, samba de Jose
Luis de Moraes, o Caninha em parceria com o Visconde de Bicoíba,
pseudônimo de Horácio Dantas, gravado em 1933 por
Moreira da Silva, constituindo-se num dos seus primeiros sucessos.
Todas as músicas mereceram um arranjo fiel às
suas versões originais essa uma exigência de Aracy
de Almeida que chegou inclusive a levar as primitivas gravações
para o estúdio da Polydor para que os músicos
que a acompanhassem pudessem ter uma idéia exata de como
elas tinham sido concebidas, mantendo desse modo as mesmas características
das introduções e dos andamentos melódicos
originais.
Este disco nos revela Aracy de Almeida em um momento de grande
performance em sua carreira, brilhando muito. Reviver, portanto,
sambas tradicionais na voz de uma deusa de nossa canção
num trabalho realizado com muita competência, faz deste
disco um marco fundamental não só de sua trajetória,
mas também um raro momento da grandeza de nossa musica
popular.
Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 21 de outubro de 2004.
MÚSICAS:
1) Batente (Almirante)
2) Adeus (Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves)
3) Minha cabrocha (Lamartine Babo)
4) Caco velho (Ary Barroso)
5) Teleco teco (Murilo Caldas e Marino Pinto)
6) Passarinho...passarinho (Lamartine Babo)
7) Eu vou pra Vila (Noel Rosa)
8) Arrependido (Ismael Silva, Francisco Alves e Nilton Bastos)
9) Vitória (Noel Rosa e “Nonô” Romualdo Peixoto)
10) Para me livrar do mal (Noel Rosa e Ismael Silva)
11) Tristezas não pagam dívidas (Manoel Silva)
12) É batucada (Jose Luis de Moraes “Caninha” e Horácio
Dantas “Visconde de Bicoíba”).
Ficha
Técnica
Aracy de Almeida - O Samba em Pessoa 1958
Produção e direção artística:
Discos Polydor Ltda.
Grupo Turma da Vila
Arranjos: Eugenio Martins Lira
Cavaquinho: índio
Contrabaixo: Vidal
Violão: César Moreno
Ritmo e percussão: Marçal
Boca de ouro: Cuíca |
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